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Atualizado às: 05 de abril, 2006 - 10h11 GMT (07h11 Brasília)
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Os 'blooks' chegaram
Ivan Lessa
E com vocês o "blook". Ainda não está dicionarizado, nem caiu na boca ou teclado do povo.

No entanto existe, e vem de book mais blog (livro mais blog, ou "blivro", se preferirem).

Já vão logo premiando, que sem prêmio a vida não é vida. Criaram o Prêmio Blooker, outro jogo de palavras, este com o Prêmio Booker, uma tradição literária britânica que remonta à exploração do açúcar lá pelo Caribe.

É um pega-pra-capar a venda de livros no Reino Unido. É uma briga de foice a leitura de livros no Reino Unido.

No Brasil, seria proibido, como proibidas são as brigas de galo e de cachorro. Acho. Você não pode dar dois passos sem encontrar uma pessoa lendo.

Eles estão lendo e caminhando, sem guarda-chuva ou documento (aqui não é obrigatório sair às úmidas ruas primaveris armado de carteiro de identidade) e aquele casal parado na esquina, livrinho aberto na mão, não discutem os méritos literários de Martin Amis, mas, sim, aonde fica o museu que procuram: claro, são turistas estrangeiros, mal devem saber ler.

Nesta semana mesmo, foi premiado o primeiro volume que inaugura esta nova forma literária híbrida. A "blogosfera" comemorou jubilosa.

O "blook" vencedor é da autoria de uma cidadã americana, Julie Powell, que, em 365 dias, num pequeno apartamento, resolveu preparar as 524 receitas que constam da bíblia gastrônomica norte-americana, o Dominando a Arte da Cozinha Francesa, de Júlia Child, publicado em 1961.

Julie Powell começou o seu blog entendendo tanto do fenômeno quanto eu e você de receita de soufflé que não desmorone.

O volume chegou a uma grande editora, a Penguin, onde lhe deram o nome de Julie & Júlia, mais subtítulo esclarecedor, e lá fomos nós, ou foram eles, atrás nas livrarias.

Julie Powell passou na cara dois bloggers britânicos. Um deles era candidato forte: Belle de Jour, que, como no filme de Luís Buñuel, narra as aventuras eróticas de uma aparentemente bem comportada dona de casa que, à tarde, parte para a prática do pif-paf pélvico, em vez de ficar em casa bebendo vinho branco e vendo televisão. Vendo, por exemplo, "talk show".

Vocês manjam. Anfitriões supostamente carismáticos (em geral, anfitriãs) recebendo celebridades de terceira grandeza ou plebe rude de primeira. Esta última às voltas com casos complicadérrimos com cunhadas, cobradores do armazém, cachorrinho do vizinho, sogra, o que der na cabeça e, depois, ibope.

A rainha das tardes

Oprah Winfrey, nos Estados Unidos, é a dona da bola das tele-matinês.

Já foi gorda, já recebeu aves bizarras, já mandou brasa. Hoje, bem comportada, é tida como responsável por um considerável aumento na venda de livros no país do erudito George W. Bush.

Só por que instituiu a leitura e a promoção sistemática de determinados livros. Bobeou e, qualquer dia desses, ela pega um Nobel por contribuir para manter em casa desordeiros e desordeiras em potencial.

O que interessa é que a mania do livro pegou. Aqui, ali, acolá. Espero que em nossos brasis também.

Bloguear pode dar livro. Vão nessa. E não precisa acabar em livraria. Pode ficar pela Net mesmo, para ser folheado aos poucos, como quem lê – quem? – Euclides da Cunha.

Livro: tua glória é lutar

Livro é uma paixão, dizem por aqui, como dizemos nós que o Flamengo, o Corinthians, o Cruzeiro ou o Grêmio são paixões.

Em 2005, 216 milhões de livros foram vendidos na Grã-Bretanha. Nem tudo besteira. E mesmo que fosse besteira, nada demais.

Besteira é para ser lida e vendida também. Nós somos 90% água e 10% besteira. Deixemos de pedantismos.

Sejamos docemente pragmáticos: viver é uma baita besteirada. Esse, pois, o único tema digno de nosso assobio e nossa atenção.

Vamos parar com essas frescuras de decorar parágrafos de Josué Montello ou versos de Dorothy Parker.

Livro é para não só passar o tempo, mas também, e principalmente, manter as pessoas ocupadas. Livro é para tirar a cabeça das pessoas da compra, venda ou troca de drogas. Livro é para não se sair por aí assaltando nosso semelhante. Livro não mata.

A não ser quando arremessado do vigésimo andar na cabeça de um passante. Mesmo assim, tem que ter muito mira. E a mira, sabemos, pode ser aprimorada mediante a leitura criteriosa de certos livros.

Exige concentração e prática. Muita prática. "Como driblar as autoridades", até onde sei, não se encontra nas seções de "auto-ajuda" das livrarias. Mas, quem sabe, no meio da "blogosfera"…

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