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Ivan Lessa: Saparmurat Niyasov | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Lembram aqueles slogans? “Livro: o melhor amigo”, “Livro é cultura”, “Ler é o melhor remédio”, “Livro veste hoje o homem de amanhã”? Esse último é mentira minha, invenção, mas, pensando bem, até que não era uma má. Segundo, e talvez graças, a Saparmurat Niyasov podemos – não, devemos! – ler e ir direto para o Paraíso. Quem é Saparmurat Niyasov? perguntarão os mais desinformados. Ora, Saparmurat Niyasov (adoro escrever e pronunciar esse nome. Três, quatro vezes em seguida. Experimentem só, para ver) é nada mais, e nada muito menos também, do que presidente do Turcomenistão, que vocês estão cansados de ler e saber a respeito. É, aquele Turcomenistão mesmo. O famoso Turcomenistão localizado no centro-oeste da Ásia, de clima árido e frio, com 488.100 km2, população de 4,5 milhões, sendo 73% turcomanos, 10% russos, 9% uzbeques, 2% cazaques e 7 brasileiros de Minas Gerais esvaziando cinzeiros em restaurante uma estrela. O Turcomenistão de Saparmurat Niyasov possui como moeda oficial o manat (o T é mudo, como cerca de 650 mil cidadãos do país) e a renda per capita em torno de US$ 780, o que constitui, segundo os padrões locais, um verdadeiro maná, pois o trocadilho é muito apreciado nos círculos chiques turcomanos. Por exemplo, os jornalistas esportivos locais, em péssima demonstração de ufanismo indevido, vivem reclamando da atuação de uzbeques (“os béquis”, pegaram?) nos jogos da seleção turcomana. Autocracia e locução Agora que já estamos mais íntimos do Turcomenistão e do presidente Saparmurat Niyasov, vamos ao que interessa. Em recente locução (lá ainda é assim) dirigida à juventude do país, o “autocrático” (assim o chamou um jornal de esquerda francês) líder disse que seu mais recente livro, o “Rukhnama”, já mencionado, uma obra literária de mais de 400 páginas, deve ser lido pelo menos três vezes, em voz alta, se a pessoa estiver interessada em ir direto para o Paraíso. Depois de morta, claro. A “autocracia” naquele país, segundo consta, ainda não chegou ao ponto da coalizão Estados Unidos-Reino Unido nele encontrar as lendárias “armas de destruição em massa” (lembram?). Saparmarat Niyasov não pode parar. Já proibiu uma ópera e um balé, vociferou contra aqueles com dente de ouro na boca e batizou com seu nome (Saparmarat Niyasov) uma cidade, um aeroporto e um mês, anteriormente conhecido como “janeiro”. Seu livro, o “Rukhnama” em questão, serviu de nome para uma universidade e o antigo mês de “setembro”. Erguendo uma desconstrução O volume assinado pelo presidente Saparmurat Niyasov (esse cara vicia, pôxa!) intitula-se “Rukhnama” e consta de preceitos filosóficos, trechos de discursos, história, memórias pessoais e conselhos morais. Uma espécie de livro de auto-ajuda (ô generozinho desagradável, sô!) escrito pelo Paulo Coelho, se esse fosse presidente e tivesse atingido o sétimo patamar da sabedoria “autocrata”. Um trechinho só para dar água na boca de vocês: “Meus queridos turcomanos! Respeitem os mais velhos. Amem os mais jovens. Não franzam o cenho para pai e mãe. Não sejam unha de fome com as esmeraldas, quando se trata de suas filhas e mulheres. O pai turcomano, intelectual e sábio, precisa dar um bom exemplo a fim de educar seus filhos. Uma criança turcomana deve ter senso de humor. Os turcomanos serão, sempre que puderem, civilizados, limpos, atraentes e úteis.” Não sei se a televisão turcomana planeja uma minissérie a respeito de Saparmurat Niyasov. Torço para que sim. E para que não chamem de “SN” e sim de (tragicamente esta é a última vez em que digito o adorável nome) “Saparmurat Niyasov”. Ah, sim, ia me esquecendo. O Turcomenistão foi julgado ainda há pouco como o oitavo país mais repressivo do mundo. |
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