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Atualizado às: 17 de março, 2006 - 08h38 GMT (05h38 Brasília)
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Ivan Lessa: Chiando com e para a ciência
Ivan Lessa
Quarta-feira foi notícia em todos os jornais: foram internados no departamento de tratamento intensivo de um dos maiores hospitais de Londres seis cidadãos britânicos que serviram de voluntários como cobaias numa experiência científica para um conhecido laboratório farmacêutico europeu.

O teste clínico teve resultados calamitosos. O laboratório testava os efeitos de um novo medicamento destinado a tratar doenças inflamatórias, tais como a artrite reumática e a leucemia.

Os seis bravos eram necessários para que a ciência, a indústria farmacêutica, as farmácias e os médicos pudessem ficar sabendo se uma determinada droga, ainda em fase experimental, tinha efeitos colaterais. Tinha. O laboratório em questão, via porta-vozes e relações públicas, informou que a reação adversa “era muito rara”. Aí não é preciso ser cientista para notar uma contradição: se a reação adversa era rara, então o medicamente já havia sido testado, confere? Testado em quem? Ratos? Faltou clareza.

Cientista é uma raça impagável. Quando não estão conferindo as benesses de medicamentos, bolando um novo, mais rápido e eficaz rifle de repetição ou arma de destruição em massa (serve gás letal, mesmo não-iraquiano), juntam-se no botequim da esquina e ficam contando piadas sobre eles mesmos, piadas conhecidas como “de cientista”. Os cientistas fazem, hoje em dia, o mesmo papel que os portugueses e os papagaios já fizeram em nosso repertório anedótico. Dão a receitinha para o sonífero e depois contam a última piada.

Eu eutanizo a cobra e mostro a seringa, conforme se diz no metiê médico-científico.

“Agora canta o Nessun Dorma!”

Não tem muito tempo, os jornais noticiaram que a pesquisa científica trouxera à tona um fato da maior relevância para a história da humanidade. Conforme observou o escritor de ficção e não-ficção científica, Isaac Asimov, a frase que acompanha a maior parte das descobertas não é o “Eureca!”, de Euclides, mas “Isso é engraçado!”. Ou, como diríamos nós, “essa é muito boa”.

Qual o fato de extrema relevância? Os cientistas, esses espíritos inquietos e desbravadores, descobriram que rato canta. Isso: rato canta. Na verdade, eu já notara, em meu limitado relacionamento com nossos irmãos roedores. Cantar, cantar, não digo, mas que emitiam uns ruidinhos curiosos, lá isso emitiam. Chiavam, conforme se diz.

Os cientistas, porém, utilizando-se das mais recentes técnicas e instrumentos de laboratório, chegaram à revolucionária conclusão quase que assim por acaso, pois na verdade vinham conduzindo experimentos com feromônios, aquela substância que, juram eles (e muita gente boa), torna afrodisíaco o cheiro de sovaco, ou suór de axila, ou ainda bodum, para dar designações mais científicas.

Na época, o noticiário não informou, e continua a não informar, o que pretendiam eles com o erotizante feromônio. Uma barra de chocolate inovadora? Desodorante odorante? Só os cientistas sabem. De qualquer forma, virando e mexendo nos ratos, descobriram que estes chiam agudo, sim senhor, mas em padrões complicados e musicais, como violão de João Gilberto ou arranjo de Pete Rugolo para Stan Kenton.

“Vira esse lança-perfume pra lá, moço!”

O fato, o eureca da questão, se deu quando eles, os cientistas, deram um pedaço de algodão impregnado de urina da fêmea da espécie para ver a reação dos irracionais. Eles chiaram. No melhor sentido, isto é, cantando. Chiaram diferente. Em progressão harmônica e melódica diferentes de quando expostos a um bom queijo suíço. Examinando as gravações feitas, veio a conclusão: rato canta, quando atiçam a sexualidade dele.

Ainda sem data o lançamento do primeiro CD.

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