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Ivan Lessa: Pena longa | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Nunca entendi noite de autógrafos. Acho mais natural as pessoas terem vontade de chegar perto do George Clooney ou da Nicole Kidman, no tapete vermelho da pré-estréia, só para ver como é que eles são na “vida real” e, talvez, neles tocar ou deles pegar um jamegão. Escritor não tem a menor graça, são em geral feiões ou buchos (pensem em termos de Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir) e, no mercado do livro autografado, valem pouco mais do que aquilo que o gato enterra. Além do mais, deveriam se mancar e parar com essas vaidades só para vender mais 31 exemplares. Há algumas exceções no mundo dos autógrafos de escritores: gente morta há muito, muito tempo (Camões, Shakespeare, Joyce, Proust), ou, hoje em dia, com vida, de difícil acesso, como nos casos dos americanos J.D. Salinger e Thomas Pynchon ou do brasileiro Paulo Coelho. Ir a uma manhã, tarde ou noite de autógrafos de Nestor Paiva, por exemplo, é de uma extraordinária perda de tempo. Idem, a canadense Margaret Atwood. Aliás, e principalmente, a canadense Margaret Atwood. Não pelo fato da romancista de “A História da Aia” e de “A Noiva Ladra” ser canadense, que isso, coitada, não é culpa dela, mas pela inovação tecnológica que agora mesmo, em março, ela tentou introduzir no tedioso evento. Lançando seu mais recente romance, “A tenda”, em Nova York, Margaret Atwood aproveitou a ocasião para aderir à revolução tecnológica que, a cada dia, vai fazendo mais vítimas, capturando mais prisioneiros, torturando mais do que se torturava em Abu Ghraib, sem, no entanto, que ninguém reclame ou sequer tome conhecimento. Margaret Atwood, além do livro, lançava o autógrafo à distância, mediante o uso (era para ser inaugural) de um complicado instrumental que leva o nome de “LongPen”, ou “PenaLonga”, como diríamos nós, à beira de um coelho de desenho animado. “Houston, nós temos um problema…” Era para ser assim: PenaLonga não é um índio norte-americano dono de cassino, mas sim um treco (para dar o nome técnico) ligado a uma caneta especial, por sua vez ligada a outras canetas especiais situadas em pontos diversos do globo terrestre. Diante da romancista, uma tela de computador. Diante dos compradores à cata de autógrafo, outra tela. Dest´arte (e tome dest´arte), um e outros se viam, podiam até trocar umas palavras, como nas videoconferências, tão comuns entre os nossos 16 bilionários nomeados recentemente pela prestigiosa revista “Forbes”, e, com a PenaLonga, Margaret Atwood assinava num pedaço de papel qualquer a inscrição que, por um milagre da ciência, ia parar na página escolhida pelo freguês distante, estivesse este no Canadá, na Europa, ou Namíbia. Estava tudo pronto na livraria da McNally-Robinson, em Prince Street, Nova York, a laureada ficcionista já sacara de sua PenaLonga, quando a equipe técnica responsável pelo evento, como a Nasa em dia aziago, avisou que havia um probleminha e que, sorry, não ia dar naquele dia. As 40 pessoas presentes, em carne e osso, conseguiram o exemplar autografado. As – quantas seriam? – situadas em livrarias estratégicas espalhadas pelo globo terrestre, ficaram por lá mesmo, mexendo nos volumes da seção de crimes, de auto-ajuda ou manuais tecnológicos. Ninguém comprou nada. Boa. |
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