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Atualizado às: 22 de março, 2006 - 08h13 GMT (05h13 Brasília)
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Ivan Lessa: Saída verdinha
Ivan Lessa
A gente chega a este mundo e vamos emporcalhando-o desde os primeiros instantes. Começamos com a vomitadinha no chão e, daí em diante, vamos nos aperfeiçoando naquilo em que homem e mulher são imbatíveis: deixar um rastro de lixo atrás de si. Do papel de bala e chiclete ao jornal velho e volante de espírita vidente, passando pelo cigarro e a embalagem de… tudo.

Não satisfeitos, avançamos contra o que a natureza, distraída e bobona, deixou em sua santa inocência ao nosso redor, crente que iríamos aproveitar tudo com todos nossos sentidos. Sentido? Não é aqui, não, senhor. Isso é coisa de outro planeta em outra galáxia muito, mas muito longe daqui, lá para as bandas do George Lucas.

Nosso negócio é ganhar dinheiro e fazer besteira. Besteira não só com nossos semelhantes, mas com tudo o que nos cerca.

Daí a necessidade de ambientalistas, dos verdes. É uma espécie de compensação pela nossa tentativa sistemática de destruição de tudo que nos cerca.

Em poucas palavras, nascemos poluindo e devastando, morremos poluindo e devastando. Indo mais longe que esse revertere ad locum tuum: mesmo depois de batermos as botas ou com as dez, de subirmos, de deixarmos este vale de lágrimas, de fecharmos o paletó, de partir na horizontal, e esses eufemismos todos, continuamos a poluir e a devastar.

Continuação por outros meios

Se nos enterram, nossa determinação em poluir prossegue impávida. Em nada contribuímos para o enriquecimento do solo. Não vou me aprofundar (êpa!) nesses detalhes porque o assunto me deprime. Sugiro que quem se interessar pela questão leve um papo com um especialista. Se nos cremam, conforme virou moda (feito cirurgia plástica estética), também continuamos anarquizando, poluindo com a criatividade que é de nosso feitio: criamos perigosas emissões de mercúrio e fluidos embalsamadores.

Quer dizer, nós não temos jeito.

Ir de verde

Agora já se pode, ao menos, tentar. Tentar morrer em paz verde e ambientalista. Pelo menos em Tufnell Park, aqui na região norte de Londres. Mais precisamente, se aquelas pessoas de posse de nosso testamento, e que vão herdar nosso seguro e coleção de discos de vinil, procurarem os serviços da agência funerária “Green Endings” (literalmente “finais verdes”). Sabedores que 70% dos cidadãos britânicos preferem a cremação, com suas desvantagens ambientalistas já enumeradas, a empresa aconselha, conforme seu material promocional, a deixarmos a verde terra (ou azul, conforme queria o cosmonauta) de forma a mais verde possível, não importa a religião, o agnosticismo ou o puro e simples ateísmo do falecido.

A “Green Endings” está oferecendo caixões biodegradáveis, isto é, enterros verdes em, claro, caixões verdes, preparados cuidadosamente com material reciclável. A saber, papelão, vime e bambu.

Mexam-se, pois, não fiquem aí parados. Vamos legar algo mais que quarto-e-sala conjugado para nossos herdeiros. Deixemos tudo um pouco mais verde. Cor da esperança e da camisa do Palmeiras.

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