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Atualizado às: 27 de março, 2006 - 06h58 GMT (03h58 Brasília)
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Salvemos as perucas!
Ivan Lessa
Eu tive, na época em que era de praxe, três processos na Justiça brasileira: dois por atentado à Moral e os Bons Costumes (no Brasil era em maiúsculas) e um por infringir a Lei de Segurança Nacional.

Frescuras da ditadura, comes-e-bebes do regime milico-paisanal.

É que eu trabalhava, cheguei mesmo a editar, dizia o expediente, um jornaleco chamado "Passim", "Purim", "Pasquim", uma coisa assim.

Volta e meia tinha de comparecer no fórum, sempre armado de nosso advogado, uma pessoa esplêndida, que eu e Jaguar, melhor dizendo, Jaguar e eu, transformamos até em personagem de uma tira que fazíamos na época, "Os Chopnics", que chegou inclusive a pegar, na medida em que as coisas pegam no Brasil (aquelas mesmas coisas esquecidas 15 minutos depois, para trabalhar com o lugar-comum legado por Andy Warhol).

Nosso advogado, o do jornaleco e da tira, e que acabou amigo querido, chamava-se Mânlio Marat Aquistapace, cujo simples nome dispensava diploma na parede e, quem nele não confiar, mereceria processo por atentado à Moral e aos Bons Costumes e atentado à Lei de Segurança Nacional.

Marat não usava peruca. Seu único defeito, além de não gostar de chope preto.

Sinto que os processos contra minha pessoa não tenham ocorrido aqui no Reino Unido. Eu dava minha alma a uma masmorra, três dias de solitária e um ano de liberdade condicional só para ver o Marat de peruca branca.

No tal jornaleco, que eu não consigo lembrar o nome, eu vivia botando na página de cartas, que muito me aprazia responder, um pequeno "box" com os seguintes dizeres: "Nossos colaboradores usam perucas Fiszpan".

Não era verdade, mas nunca ninguém reclamou. Acho que, por algum motivo, tinham medo de mim.

Também as perucas Fiszpan (o Z é mudo, possivelmente surdo e puxa um pouco da perna esquerda) nunca me mandaram amostra grátis, ao contrário das fábricas de discos, editoras de livros e moças razoáveis de Ipanema.

Bem feito pra eles, das perucas Fiszpan: só de vingança, não fiquei careca.

Uma profissão emperucada

Ao que interessa, já que 16 linguiças foram devidamente enchidas nas linhas acima. Vocês já devem ter notado, nesses filmes ingleses de tribunal (há poucos, bem sei), que os advogados e os juízes usam uma estetizante peruca branca.

Quando digo advogado, refiro-me ao "barrister", ou seja, aquele que vai diante do juiz e argumenta o caso. Os que cuidam da papelada, de lidar com os culpados (sejamos brutalmente francos: todos nós somos culpados de alguma coisa), são os "solicitors", que eu só não traduzo por "rábulas" para não complicar ainda mais a cabeça de vocês, a minha e as deles.

Ora, pois, pois, conforme se diz nos meios migratórios brasileiros. Ora, pois, pois, não é que, nessa mania de modernizar tudo, os britânicos não estão querendo reformar, no sentido de aposentar, as perucas dos juízes e dos advogados?

Querem que eles, sem peruca branca feita de cabelo dos melhores e mais nobres cavalos, defendam, argumentem, ouçam, decidam, durmam (juiz inglês dorme à bessa – ou “paca”, feito se dizia – lá no seu poleiro jurídico), resumam as coisas para um bando de jurados que nunca entende patavinas ou blicas (sempre populares nos meios a que me referi há pouco) do acontecido e sempre condenam os inocentes e inocentam os culpados, uma premissa básica da jurisprudência universal.

Assim, não. Aqueles lordes, todos de arminho vermelho berrante e peruca branca, fazem parte da Grã-Bretanha, assim como o repertório shakesperiano e a fonte sempre quebrada e cada vez mais cara construída em memória da falecida Diana, princesa de Gales.

Aqueles barristeiros, (traduzo livre como um pássaro doido a voar pelos ares da retórica prosopopaica desta terra), aqueles juízes, sem peruca, de jeito nenhum.

Se fazem questão de marchar com o tempo, adotem a bipolaridade, agora tão em moda. Tudo é bipolar de 2004 para cá. Eu quero, todos nós com mais de 50 anos queremos, peruca.

Eu quero é peruca, como se o primeiro verso de uma marchinha de carnaval dos bons tempos.

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