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Atualizado às: 19 de abril, 2006 - 07h36 GMT (04h36 Brasília)
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Indomável e imorredouro letrismo
Ivan Lessa

A televisão lá de casa, assim como a de vocês, pega perto de 200 canais, dos quais apenas 3 ou 4 apresentam algo de assistível.

Canais de música popular (popular lá pras suas “nêgas”, feito se dizia ainda “onti-ontem” em lamentável incorreção política) têm uns seis ou sete.

Nem zapeando passei perto, mas não é por isso, infelizmente, que deixam de existir.

O MTV, até eu já ouvi falar. Mas e o VHF? Passa aí? Que chato. Ou bem feito, aliás.

Fato é que, na terça-feira, logo depois da Páscoa, as folhas noticiaram com destaque mais uma (mais uma!) pesquisa feita entre os que “curtem” (o verbo canhestro é justo) o tal do canal especializado em “popices” e “popagens”.

Treze mil fãzoroqueiros (me perdoem novas aspas, parênteses e neologismos) foram consultados a respeito da letra “mais adorada” entre eles.

Eu disse: “mais adorada”. Vou repetir: “mais adorada”. Não é a favorita, a melhor, a mais apreciada. É a “mais adorada”. Assim caminha a humanidade pop: assobiando exaltada entre aspas.

Vou direto ao vencedor. Ele, o bom Bono, aqueles dos óculos escuros com papa e presidente do lado beijando a mão.

Atenção, a VHF não pediu a letra toda. Conhecem sua platéia. Sabem que ela, com boa vontade, não consegue decorar mais de três linhas. A VHF, portanto, pediu apenas uma frase, supostamente “musical”.

A frase está contida na “música”, ou, melhor dizendo, faixa, One, constante do CD Achtung Baby, do U2, claro, gravada no distante início dos anos 90.

Diz assim: “One life, with each other, sisters, brothers”, que eu, você e qualquer outro analfabeto traduziríamos com uma mão (mamão ou melancia, se preferirem) para trás como “Uma vida, com o outro, irmãs, irmãos”.

Oba! Epa! Cole Porter babaria de inveja, Lorenz Hart pediria mais um martini suicida, Oscar Hammerstein contemplaria a possibilidade de se jogar de uma ponte. E isso com a turma que trabalhava com o idioma dos Johns Dunne e Lennon.

Digam a verdade, vocês não têm a menor idéia de quem foi John Dunne. Googlai, brasileiros, googlai!

Em português, pobre do Noel Rosa, com aquela pobreza de “no inverno, você sem meia vai pro trabalho”, ou o imbecil do Orestes Barbosa, aquele do “Dorme, fecha este olhar entardecente”, ou ainda o mais manjado, “Tu pisavas os astros distraída”.

Sem entrar em terreno dos vivos: Chico Buarque, Aldir Blanc, Caetano, ministro Gil e até mesmo o popular Ed (ou Et Caterva).

Desfile de Astros

Só para conferir, vamos dar uma repassada em alguns dos outros 9 “adorados” letristas.

Em segundo lugar, deu alguém do The Smiths, que escreveu o seguinte, e eu não taco em inglês porque morro de vergonha.

Em português, consigo o famoso distanciamento brechtiano (conhecem? Googlem mais um pouquinho) e posso fingir que não é comigo nem ninguém do meu conhecimento.

É de uma – rá! – “música” intitulada “Quão cedo é agora” e o trecho “mais adorado” diz o seguinte: “Então você vai e aguenta o tranco sozinho e se manda sozinho e vai para casa e chora e quer morrer”.

Traduzi com a devida liberdade abrindo suas asas fatídicas sobre mim.

Tem uma, em terceiro lugar, do Nirvana que diz assim: “Eu me sinto idiota e contagioso e agora aqui estamos, entretenha-nos”. Joíssima, hein?

Minha letra “mais adorada” é da faixa Yellow, vulgarmente “Amarelo” (ou “Amarela”), no Brasil, da imortal e idolatrada banda Coldplay.

O letrista, ou letristas – essas coisas às vezes levam mais de dois ou três – conseguiram articular, supostamente em notas musicais, o seguinte poema-pensamento: “Olhe as estrelas, olhe como elas brilham para você”.

Encerro numa nota fúnebre. Dó maior, aliás. Pode ser encontrada no oitavo lugar entre as dez letras “mais adoradas”. A frase é da música My Generation (é o nome da “composição”, exagerando paca), com The Who.

Trata-se da seguinte linha, ou verso, para quem gosta de exagerar: “Espero morrer antes de envelhecer”.

Conforme articulavam os idiotas da minha geração: “Falou e disse”.

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