|
Caspa, cáspite! | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Descobriu-se, aqui no Reino Unido, que a publicidade pode ser enganosa. O caminho marítimo, aéreo e por terra para as Índias, eles já conheciam. Mas a Advertising Standards Authority, órgão que supervisiona o correto andamento de anúncios e comerciais, puxou as orelhas da Procter & Gamble e da Saatchi & Saatchi, respectivamente fabricantes e anunciantes do xampu “Head and Shoulders” (cabeça e ombros), por dizer, em suas peças promocionais, que “acaba com 100% de flocos” e também que “deixa seu cabelo 100% livre de caspa”. A autoridade que zela pela veracidade publicitária não pode ir além disso: puxar as orelhas. Agora, que cria caso, lá isso cria. Menos de um dia depois do parecer, todos os jornais lá estavam aproveitando a pauta. Principalmente os jornais, que não veiculam anúncio de xampu anti-caspa. A televisão e as revistas (que são inúmeras) mantiveram, como diria a agência em questão, um silêncio 100% respeitoso. Só nos dois no salão Há detalhes interessantes na conclusão da Advertising Standards. Igualmente curiosos os padrões dos fabricantes, a Procter & Gamble. O critério para o extermínio de flocos, ou escamas, de caspa não é o mesmo que nós, pessoas menos exigentes, para não dizer escrupulosas, adotaríamos. Os fabricantes, aliados à agência publicitária (afinal, trabalham juntos), afirmam que a caspa – minha caspa, vossa caspa, se a tiveres, madame, o que é pouco provável –, após o uso regular do xampu “Head and Shoulders”, torna-se invisível a cerca de 50cm de distância. Ou seja, qualquer pessoa que não se aproxime muito de nós (eu vos trouxe de novo para bem perto de mim, madame, sempre com o devido respeito) não notará os pequeninos flocos semelhantes à neve que adornam nossos ombros comuns – eu de terno escuro; você, doce amiga, de tailleur bege. Seria necessário que o interessado, o enxerido, o voyeur, ficasse quase que colado a nós, como se satisfazendo uma tara inconfessável. Neste caso, estamos transcendendo o terreno, ou chuveiro, da saúde e estética de cabelos e couro cabeludo, com o perdão da – não digo má, mas vulgar – palavra. Nós: no espelho, nas telas Se nos olharmos bem de perto no espelho -, eu aqui, você no seu perfumado boudoir ou sala de banhos -, observaremos que lá está ela, lá continua ela: a maldita caspa! Isso segundo a Advertising Agency, que insiste em nos acompanhar, a mim e a você, em nossa intimidade. O mesmo vigilante órgão acrescenta que, a se julgar pelos anúncios e comerciais, que mostram em extremo close-up o escalpo do usuário (para evitar o termo “couro cabeludo”), este apresenta-se totalmente livre de flocos e escamas graças ao xampu em questão. Ou seja, livres da caspa. O indivíduo (ele lá, ela lá) caspento ou casposo terá deixado de sê-lo graças ao miraculoso produto. Cabelos macios e sedosos, livres de quaisquer impurezas ou máculas em sua deliciosa e, digamos logo, erotizante estética. Vivemos num mundo mau, enganoso. Tudo está à venda. Cremes que embelezam, pílulas que curam tudo, moças que prometem uma noite inesquecível de prazeres. Já fui publicitário. Enganei milhares com minhas palavras sedutoras, minha Remington mentirosa. Muitos foram à liquidação da casa de eletrodomésticos, crentes de que iriam encontrar incomparáveis pechinchas. Outros chegaram ao menos a visitar o suposto confortável apartamento numa rua tranqüila da lagoa Rodrigo de Freitas. Pobres coitados. Depois, arrependido, passei a dedicar-me apenas à poesia, onde labutei durante alguns anos. Morro, no entanto, de inveja do melhor slogan que, embutido, trazia sua irresistível mensagem de vendas: “Melhoral, Melhoral, é melhor e não faz mal”. Quantos medicamentos poderiam afirmar o mesmo hoje em dia? Que são melhores? (Melhores que o quê?) E que não fazem mal? |
NOTÍCIAS RELACIONADAS Os sapos e os rosbifes07 abril, 2006 | BBC Report Os 'blooks' chegaram05 abril, 2006 | BBC Report Salvemos o Meridiano de Greenwich03 abril, 2006 | BBC Report Super-heróis muçulmanos31 março, 2006 | BBC Report Sem fumo na Escócia 29 março, 2006 | BBC Report Salvemos as perucas! 27 março, 2006 | BBC Report Ivan Lessa: Saparmurat Niyasov24 março, 2006 | BBC Report Ivan Lessa: Saída verdinha22 março, 2006 | BBC Report | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||