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Alvos tempos, negras distâncias | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Vou logo sentenciando: amigo tem de ter mais de 50 anos de amizade. No mínimo. E para que a amizade dure, o ideal é não se ver pelo mesmo espaço de tempo. Meio século. Sim, é barra. Mas o que mais se preza, o que mais carinho e lealdade inspira, só com esse tempo e essa distância. Ah, sim, eu ia me esquecendo de dizer. Há que se manter também, entre os velhos amigos, pelo menos 5 mil quilômetros de distância. Aí tudo funciona. Acabou-se aquela história de trocar de mal, os dedos mindinhos entrelaçados e depois soltos. Acabou-se a porrada na mesa do bar por causa de uma mulher que não valia nada (mas isso só se descobre depois). Acabou-se o súbito esfriamento nas relações depois que um sugeriu para o outro um investimento batatolina nisso ou naquilo. A parcimônia é o segredo da amizade duradoura. O tempo e suas sutilezas Tendo finalizado um parágrafo com mais uma sentença, vou – desta vez direto – ao assunto. Eu tenho um amigo há mais de 50 anos. Pelas minhas contas, não nos vemos desde as calças curtas do curso primário. Com esses esquemas sutis do tempo, de repente, de uns anos para cá, fomos esbarrar um no outro no mundo cibernético. Passamos a trocar dosados e-mails, mandamos arquivos que nos chamaram a atenção, por isso ou aquilo outro (em geral coisa engraçada), medimos com colher de chá informático nossas relações. Ele é amigo fiel. Outro dia mesmo, enviou, por correio-lesma, um segundo caderno de jornal contendo assunto que ele, acertadamente, acreditou de meu interesse. Estou até hoje pensando em como retribuir. Amizade antiga – antiquérrima – exige retribuições. “Um dia desses, eu bolo algo”, venho pensando com meus botões, estes outros velhos amigos e atenciosos amigos. Ora, muito bem: então eu estava nesse “diadema retrós”, feito dizíamos no terceiro ano primário, quando me chega às mãos, de novo por correio-lesma, jornais deste mês mesmo contendo tudo que eu precisava saber sobre a conquista do campeonato carioca de 2006 pelo Botafogo. Meu velho compadre sabe-me um dos 18 torcedores do alvinegro, da valorosa equipe de General Severiano, do time da Estrela Solitária, daquele que, segundo a letra do hino composto pelo Lamartine Babo, era o “campeão de 1910”, mas que – em geral, arquibancada ou social --, só cantávamos “campeão desde 1910”. Torcer pelo Botafogo foi das poucas coisas certas que fiz na vida. Sofri como um cão, isso é verdade. Mas basta lembrar de 1948, de 1957, do bicampeonato de 1961 e 1962, que tudo se acerta, tudo se compensa. Conforme dizem, numa gíria que não de meus tempos de Brasil, e que odeio (vai ver por isso mesmo): “Valeu”. Passado: a limpo e de lupa Pego e folheio o poster enviado, o Jornal dos Sports (nem o sabia vivo como eu, mas gozando de melhor saúde), o caderno de esportes de “O Globo”, de segunda-feira, 10 de abril. Mexo em tudo isso, folheio e examino detidamente, como se diante de Pedra da Roseta ou Última Ceia de Da Vinci. Lá está, nas tradicionais letras garrafais: “Domingão alvinegro”. Como somos aumentativos, racionalizo para evitar um tento das saudades. Fogão. Brasileirão. Um país em “ão” com uma porção de gente em “inho”. Mas isso só pode ser mágoa de minha parte, de sentir não estar lá. Abro a papelada, pego da lupa para melhor ver as fotos, desconstruir o texto-hieróglifo. Nada entendo. Não conheço ninguém. Procuro dar um sopro de vida neles todos, na festa inteira. Max, Scheidt, Ataliba, Bill, Dodô. Cadê Osvaldo Baliza, Rubinho, Gerson, Paraguaio, Octávio (que outro dia, para minha incomparável vaidade, soube, perguntou por mim a outro amigo quase desconhecido). Cadê Quarentinha, Didi, Nilton Santos, Paulinho Valentim, Garrincha? Num rompante final, embirrado e sentindo uma porção de coisas que não sei o que sejam, pego o jornal inglês e vou ler sobre a vitória do Arsenal, que esses estrangeiros, para mal de meus pecados, eu os conheço melhor um pouquinho. Não é que o Botafogo, para mim, tenha acabado ou passado. Eu é que me perdi no turbilhão da galeria, feito o malandro de camisa amarela do Ary Barroso. |
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