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Atualizado às: 08 de maio, 2006 - 08h51 GMT (05h51 Brasília)
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Ivan Lessa: Em torno do tornozelo
Ivan Lessa
Secar as moças na rua. Assim que se dizia: secar as moças. Ainda se diz? Espero que sim. É bem descritivo. O significado não era dos mais óbvios: era ficar só de olho nelas, nas moças – senhoras e senhoritas – que passavam.

Um ou outro mais canalha, mais desaforado mandava uma olhadela geral de fazer as mais tímidas (talvez fossem as mais loucas, as mais depravadas, assim me jurou um amigo e, no jornal, garantia o Nelson Rodrigues) ruborizarem e seguirem em frente de narizinho arrebitado e andarzinho apressado. Os olhares, esses exames de esquina, também eram chamados de “conferida geral”. Não vinham acompanhados de piropos, lisonjeiros ou grosseiros. Galanteio era outra história. Estamos falando aqui da apreciação estética interessada, quase platônica, da passante.

Nunca foi a minha. Quer dizer, não foi assim, às escâncaras. Eu dava uma espiada marota com o canto dos olhos e olhe lá – pois lá eu olhava. Se me flagrassem no ato, morreria de vergonha. Timidez, por certo. Mas olhava, checava. Dava uma geral nelas e estávamos desconversados.

Naqueles anos – isso foi há muito tempo, quando os bichos ainda falavam – eu reparava muito no tornozelo das moças. Ou melhor, nos tornozelos, uma vez que, felizmente, eles sempre vieram, e continuam a vir, em par. Reparei e tomei notas mentais, que guardo até hoje, que nós, ou elas, sempre fomos bons, ou boas, de tornozelos. Tendiam para o bem contornado e sobre o fino, constituindo um delicioso (perdão, leitores) contraste com a batata das pernas deles ascendendo e, em seguida, se erguendo na direção de todos os mistérios deste mundo.

Constituíam, pois, os tornozelos, uma iniciação e uma indicação.

O tornozelo no mundo

Razoavelmente viajado para a minha tenra idade (dos 15 aos 35 anos, digamos. Os tornozelos tiveram para mim apenas 20 anos de vida ativa), comecei a anotar e dar notas aos tornozelos femininos. Os primeiros tornozelos estrangeiros que pude conferir, sempre com a devida prudência e respeito, claro, foram os das argentinas. Eram mais grossos um pouco do que os nossos das nossas. Não constituíam, porém, um atentado estético.

Neste ponto, faço questão de abrir parênteses para as deusas do que então chamavam de “écran”. Filme não valia. Filme passava a maior parte do tempo com a câmera encanada no rosto delas. Da Ava Gardner, da Lana Turner, da Kathryn Grayson (não conhecem? Não sabem o que perderam). Betty Grable, Cyd Charisse, Ann Miller, que exibiam as pernocas, só dava para uma ligeira, muito ligeira, “conferida”. Só. Tínhamos de nos contentar com o resto. Ai, o resto! Mas tergiverso.

Tornozelos danados de interessantes eram os das francesas. Finos, elegantes, tudo aquilo que os livros e as canções nos prometiam a respeito das moças que subiam e desciam o Champs-Elysées. Combinavam a perfeição com aquele passinho delas, indo ou vindo das compras.

Chego finalmente (sim, viajei pouco) ao Reino Unido. Anos 60. King's Road, Chelsea, Carnaby Street, minissaia, todos aqueles lugares-comuns. Grande decepção nas minhas hostes, nos meus postos de observação. Eram – não tenho como evitar a avaliação – grossos demais. E gordinhos demais continuam, juro, embora eu tenha deixado de conferir há bem uns 25 anos.

Fico sabendo agora, cortesia da revista “Grazia”, que, numa pesquisa, 5 mil mulheres britânicas indagadas se pronunciaram satisfeitíssimas com seus tornozelos, torneados à maneira de Perséfone, filha de Zeus, santa padroeira dessa parte do corpo humano. Elas estão por fora e deveriam apelar para os serviços de cirurgiões plásticos, agora em moda por aqui, infelizmente. Sinto muito, britânicas, mas mesmo de salto alto 7 e meio (entendo disso) vocês perdem longe para o resto do mundo. E vou logo pedindo desculpas por soar indelicado.

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