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Ivan Lessa: A crise dos pauzinhos | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Não tem aquela velha marchinha que diz "daí deu-se a confusão, estourou a guerra China com Japão"? Ary Barroso e Alcyr Pires Vermelho. Carnaval de 1939, com toda certeza. A ver, agora, se a história não se repete. Se repetir, será como farsa, feito outra música popular. As coisas estão pretas entre os amarelos, como diria aquele sujeito, tipo acabado do politicamente incorreto. Tudo culpa dos pauzinhos. Aqueles pauzinhos que a gente usa nos restaurantes chineses e japoneses. Acho que não temos um nome específico. Em inglês, são "chopsticks" e os japoneses chamam de "waribashi" só para confundir os ocidentais. Vá lá que seja. Mas, nestes dias de copa do mundo, deixemos de bater bola e vamos logo ao pontapé inicial. Os "waribashi" vêm em duplas. São dois, coladinhos feito siameses e, como sabemos, a gente dá uma separada neles e taca ficha, ou melhor, taca pauzinho. Os japoneses utilizam cerca de 25 bilhões de pares de pauzinhos por ano para cima de sushi, sashimi, tempura e o que mais for. Depois, jogam fora, conforme a praxe. Essa – ahn… – "pauleira" dá uma média de 200 pares de pauzinhos por pessoa, por ano. Tudo bem, problema deles. Até certo ponto. Acontece que os pauzinhos japoneses são importados da China que, agora, resolveu impor uma taxa de 5% sobre o popular utensílio alegando preocupação com o desmatamento de suas florestas. Não se sabe se há ou não sinceridade no esquema, se não será apenas vontade ou de fazer média com os fregueses ocidentais ou pura birra com os tradicionais inimigos – e quem negar a inimizade secular está com a mão amarela. Então vamos lá: taxa de 5% imposta aos fabricantes dos pauzinhos chineses. Pânico na área da exportação. E como é que a gente faz então?, perguntaram-se os industriais. Simples, o que todo mundo faz: repassa para o comprador a despesa, que este também fará o de praxe, repassando para o consumidor. Resumindo, os fabricantes aumentaram os preços em 30%, prometendo para breve, como se fosse o lançamento do "Código Da Vinci 2", outro aumento de 20%. O resultado foi que os pauzinhos passaram de um iene para um iene e meio. Protestos japoneses generalizados. Os produtores alegaram ainda, em sinal de resposta e como justificativa, que o transporte estava cada vez mais caro e a matéria-prima também. Um filme que todos nós assistimos todos os dias de todos os meses. E a solução? Ichiro Fukuoka (gravem este nome. Não sei para quê, mas gravem), diretor da Associação Japonesa de Importadores de Pauzinhos (juro!), declarou para a Associated Press (entrego logo, que nessa não entro sozinho) o seguinte: "Não estamos ainda numa situação de emergência, mas já sentimos o impacto dos novos preços". Em Osaka, uma cadeia de 760 restaurantes está experimentando pauzinhos plásticos. Não é a mesma coisa, é o que parecem dizer os clientes. Outros restaurantes estão tentando o pauzinho de bambu, que também não é a mesma coisa. Há 20 anos, o Japão fabricava metade de seus próprios pauzinhos descartáveis, mas, aos poucos, a importação da China acabou saindo mais barato. A China produz 45 bilhões de pauzinhos, sempre em pares, óbvio. Isso equivale a perto de 25 milhões de árvores. É muita árvore para pouco peixe cru, se me permitem criar um ditado e, simultaneamente, uma citação a ser antologizada. Em clima criativo, encerro esta história triste, que espero de nenhuma conseqüência bélica, com um haicai de dois pés e duas mãos quebradas: Na floresta |
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