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A visita papal | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
"O Papa vinha cantando alegremente, coén, coén…" Ou seria "quém, quém"? Ou ainda "quëm, quëm"? Tempos de bossa nova, ou mesmo de rap, a dúvida era, e é, cruel. Felizmente, nunca tive de escrever. Cantarolava essa única frase musical e era saudado com alguns risos simpáticos ou acusações de heresia. O Brasil é um país de macumbeiros cercado de católicos por todos os lados. Todos sem trema. Ao Papa. Na quinta-feira passada, o Papa, nascido na Alemanha, deu início a uma viagem de quatro dias, melhor dizendo, uma peregrinação, à Polônia, berço de seu antecessor, e com o fim expresso, segundo fontes do Vaticano, de promover a reconciliação entre os dois países. Estamos em 2006, João Paulo era polonês. Pergunta-se: há mesmo necessidade de reconciliação? É necessário ainda esconjurar a ocupação nazista? Quem tem a memória mais curta: polonês ou alemão? Eu não estou entendendo nada e minha vontade seria cantar uma versão pornofônica, que poucos conhecem, de Lobo bobo, também do repertório de João Gilberto. A Polônia recebeu Sua Santidade com o calor típico do país. Meio com um pé atrás, mas calor, segundo as agências noticiosas. Londres está cheia de poloneses. Seu calor já nos é familiar. Fácil, pois, imaginar como se sentiram quando o atual Papa se dirigiu, em polonês à pique do fluente, à calorosa multidão que compareceu ao aeroporto. As ruas não estavam tão cheias de gente quando das triunfais visitas de João Paulo. Parece que uns 70 mil poloneses assistiram à rápida passagem do "papamóvel" branco. No domingo, o Papa pronunciou missa campal no campo de extermínio de Auschwitz, onde perto de um milhão e meio de pessoas foram mortas, boa parte delas judeus. Foi cuidadosamente evitado o emprego da língua alemã. Ouviu-se algum italiano – o Vaticano, mas italiano. Sua Santidade, também conhecido como Sumo Pontífice, referiu-se à sua viagem como uma "jornada de fé, parte de uma missão". Nenhum órgão da imprensa chegou sequer a pensar em referir-se à breve passagem (involuntária, frisam; frisemos, pois) do Papa pela organização "Juventude de Hitler". O atual Papa não tem, segundo quem entende disso, tanto carisma quanto o papa que o precedeu. A uma certa altura dos acontecimentos, ele parou o "papamóvel" e tomou nos braços uma criança. Quem resistiria? Carisma se conquista – lentamente e aos poucos. Picolerius proibitum est Vindo de Roma, berço do sorvete, o Papa não pôde comparar o gelato com o Krem Z Herbat, conforme o chamam na Polônia. A cidade de Wadowice proibiu a venda da sobremesa (uma favorita do Papa anterior, principalmente de marron glacé) pela duração da visita. Mais: proibiu também a venda de bolos e confeitos, além do álcool. Nas refeições a que Sua Santidade Pontifical compareceu foram servidos vinhos tintos e brancos. Poloneses, é verdade, mas mesmo assim vinhos. Segundo a polícia (e o que é que a polícia, pergunto eu, tem a ver com peregrinação papal?), o objetivo foi não só manter a ordem pública como mostrar sinal de respeito. Aliás, a televisão também baniu de sua programação, os comerciais de bebidas alcoólicas, anticoncepcionais, lingerie e absorventes íntimos. Um anúncio que vendia aparelhos de TV, utilizando-se da imagem de um casal desfrutando dos "múltiplos prazeres" dos televisores LG Phillips, também passou para o "index" temporário. Nesta semana, na Polônia, voltou tudo ao normal. No Vaticano, também. |
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