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Guardando conversa para dentro | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
"Bom dia", "Boa tarde", "Boa Noite", "Obrigado", "Conta, faz favor". Depois de mais de 28 anos de Londres, estas cinco frases são as que mais pronunciei, muitas vezes trocando uma por outra ou então, esquecido e beirando a senilidade, soltei em português mesmo, com um leve sotaque (americano) em sinal de consideração. Os britânicos, ou os ingleses – estes mais próximos à minha área de comunicação --, não jogam nada fora, aguda percepção que costumo observar e guardar para mim mesmo. Lá estão, em algum canto de qualquer casa britânica, ou inglesa, as velhas fotos, às vezes filmes em 8 ou 16mm, os maços de cartas, quadros antigos, livros velhos, tudo que atrair mofo, bolor, poeira e que, de vez em quando, acaba sendo leiloado por uma fortuna e virando notícia de primeira página de jornal. Jornal então guardado, junto com outros, para que as gerações seguintes, um dia, mexendo em sótão ou porão, encontrem e dêem prosseguimento a este mudo processo de preservação. Tudo isso é feito em silêncio. Ou com o mínimo de palavras. Está aí uma das qualidades que mais me aproxima dos britânicos: esse mínimo, o essencial apenas, de palavras. Me aproxima mas não muito, claro, e tudo se passa dentro da regra, com o bico fechado. Nem mesmo os olhos podem ou devem revelar sentimentos tão pessoais como simpatia ou, exagerando, admiração. Outra coisa que não me canso de repetir aqui, pois me dá assunto, assim me ajudando a viver, é o número de pesquisas que, na certa com um mínimo de palavras, eles levam adiante todos os dias, faça frio ou calor. Tem uma nova, lacônica, que me é cara. Ou sai por um preço razoável. Síndrome do isolamento social A Real Sociedade para as Artes (ô beleza de nome! Tudo que começa com “Real” mexe comigo. Ainda serei “Real” – e com maiúsculas – qualquer dia desses), na semana passada, publicou um relatório sobre o isolamento social em que vive a maioria dos adultos. Esse isolamento é descrito como síndrome e aplicado à existência comunitária. O relatório informa (aí o verbo fica por conta do freguês da pesquisa) que mais de 75% das pessoas não participam de nenhuma atividade comunitária e 50% dos pesquisados revelaram que sequer se dirigiriam a um estranho em loja, mercadinho ou shopping centre, situados até mesmo na localidade em que moram. Apenas 33% deles conhecem mais de 10 vizinhos pelo nome, embora 82% garantam que nunca, jamais, em tempo algum, levariam um papo com um estranho ou uma estranha, na entrada do colégio onde levam e vão apanhar os filhos. A Real Sociedade está tentando romper com os grilhões do silêncio e do isolamento organizando grupos comunitários de discussão em “coffee shops”, o equivalente aos nossos botecos ou cafezinhos remediados, por assim dizer. A Real Sociedade está metendo o bedelho (estão vendo? Há anos que eu não palreio com vivalma) onde não foi chamada e deveria deixar as comunidades isoladas do jeito em que as encontrou: quietas, discretas, na moita, sem chatear ninguém, possivelmente prenhes de pensamentos graves – ou talvez até mesmo jocosos, impagáveis, pois quem pode saber do que se passa com as pessoas que preferem ficar sozinhas lá na sua. |
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