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Patias e simpatias | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
O serviço nacional de saúde social da Grã-Bretanha, conhecido pela simpática sigla NHS, vive em crise e tanto a mídia quanto as devidas autoridades estão sempre a lhe tomar o pulso e a pedir para dizer “33, 33”, já que é para manter a metáfora de pé inda que de muletas. O que ninguém fez até agora foi sugerir uma boa irrigação de seu cólon, dar-lhe flores para cheirar, cristais para brincar, tacar-lhe agulhas pelo corpo facultativo ou mesmo recomendar, duas vezes ao dia, uns vidrinhos com um pouquinho de água dentro -- isto é, homeopatia. As outras patias, simpatias ou terapias, segundo alguns, podem ser encontradas na NHS, se o paciente não tiver muita pressa e estiver disposto a enfrentar as longas filas que são apenas mais um dos problemas enfrentados pelo sistema. Se, ao menos, oferecessem shiatsu ou quiropodia, a espera talvez ficasse mais fácil. A Homeopatia O que mais preocupa as pessoas, no momento, pelo que vejo nos jornais, é a homeopatia. Entendo e não entendo a confusão. Desde pequeno, meu pai, a uma gripe ou bicho do pé que em mim se encravasse, me levava a um homeopata. Era agradável, o camarada era simpático, os remedinhos não cheiravam nem fediam e o tempo se encarregava de me curar, conforme acontece com qualquer garoto de praia. Aqui e hoje, a homeopatia grátis e pela NHS rende espaço na mídia possivelmente porque todo mundo sabe que tanto príncipe Charles quanto a Rainha Elizabeth são fãs incondicionais da homeopatia. É o que me juram. Similia similibus curantur, ouço sempre que pergunto, acompanhado de uma cara esperta e a tradução (em inglês), “semelhante cura semelhante”, como se eu não fosse do tempo em que colégio brasileiro não ensinasse latim, inda que em doses (desculpem) homeopáticas. Existe aqui o Real Hospital Homeopático de Londres, dirigido pelo Dr. Peter Fisher, que centralizou, semana passada, as discussões sobre esse tipo específico de medicina alternativa, pois alternativa continua a ser, apesar do apenas insinuado endosso real. O Dr. Fisher culpa em primeiro lugar o filósofo francês Descartes pelo bafafá todo. Segundo ele, a cartesiana questão resume-se no seguinte dilema: as pessoas estão deprimidas por estarem doentes ou doentes por estarem deprimidas? Acrescenta a ilustre sumidade que, desta forma, perdemo-nos todos em detalhes, meros detalhes. Os racionalistas, que não aceitam nem homeopatia nem acupuntura, praticamente sairam de pau atrás do Dr. Fisher, alegando que recomendar tratamentos sem base científica é, no sistema de saúde nacional, desperdício de tempo e dinheiro. Funcionabilidade O Dr. Fisher, ao contrário da aromoterapia, foi taxativo. Disse ele, “eu não entendo como a homeopatia funciona, mas que funciona, lá isso funciona.” Por três vezes ele invocou sua “funcionabilidade”, e uma vez apenas sua real ignorância. A discussão prossegue. Ainda não vi apontado um lado, aliás dois lados, interessantes: o que pode ser o “efeito placebo”, ou água com açúcar, apenas psicológico, mas, curando, que importa? E o segundo: que sai muito mais barato para todo mundo os cristais, as aguinhas, as florzinhas e outras alternatividades. |
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