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Atualizado às: 19 de julho, 2006 - 08h17 GMT (05h17 Brasília)
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Ivan Lessa: A grama debaixo, o céu acima
Ivan Lessa
Eu era capaz de jurar que fosse burrice só nossa. Não sei se devo exultar ou me exaltar em ver que outros povos podem ser tão bobalhões quanto nós.

Vou às folhas e descubro que o aeroporto de Ulan Bator, capital da Mongólia, passou a se chamar aeroporto Genghis Khan, a fim de comemorar as festividades que marcam os 800 anos de existência daquele país asiático.

É. Genghis Khan. Aquele mesmo. O que se especializou em massacres, destruir cidade sem deixar pedra sobre pedra (mas poupando sempre engenheiros e artistas) e que fez uma arte e engenho derramar prata derretida nos ouvidos de líderes insurgentes, ou então, caso estes preferissem, sufocá-los debaixo da mesa onde o grande líder fazia suas refeições.

Apraz-me pensar que, para um bom sufoco, ele preferia o almoço, refeição bem menos séria do que o jantar. Além do mais, Gengis Khan nos deixou o suposto dito de que, por onde ele e suas vagas de mongóis passassem, a grama não crescia mais.

Esse é o lado negativo de Genghis Khan. Já que ele tem um outro positivo, este proclamado pelo atual presidente do ex-estado comunista da Mongólia, Nambaryn Enkhbayar, educado na Universidade de Leeds, aqui na Inglaterra.

Segundo o insigne líder, o espírito do grande Khan poderia, mais uma vez, levar o povo mongol à prosperidade. Paz, ele não mencionou. Mas frisou que Genghis Khan, independente dos divertissements enumerados acima, foi o responsável por criar um império que ia do mar Cáspio ao oceano Pacífico, tendo derrotado exércitos chineses, persas, russos e até mesmo europeus.

Sempre segundo a presidência mongol (duro ficar digitando Nambaryn Enkhbayar), Genghis Khan acreditava na meritocracia, na decimalização, na emancipação feminina, na liberdade de crença religiosa e em impostos mais que razoáveis.

Deve ser por isso tudo que tanto “neo-conservador” se declara, ou é declarado, à direita de Gengis Khan.

Imagine só, Tom

De qualquer forma, os turistas que chegarem à Mongólia e seu mais novo aeroporto, o agora aeroporto de Genghis Khan, deveriam ter em mente um dos ensinamentos feitos pelo grande líder mongol para um de seu generais.

Segundo os tomos históricos, Genghis Khan, de certa feita, disse para o subalterno que “todos os inimigos estrangeiros deveriam ser roubados de seus pertences, ter seus filhos deixados a se banhar em lágrimas, enquanto as legiões mongóis cavalgavam às gargalhadas, levando na garupa, apertadas contra o peito, e sofrendo obscenas indignidades, as mães, mulheres, irmãs e filhas de seus desafetos”.

Isso tudo pode ser muito engraçado, mas é por isso que eu implico solenemente com aeroporto que muda de nome.

O velho aeroporto de Liverpool, que se chamava Speke (e se pronunciava como em “speak”, falar), passou a ser chamado aeroporto John Lennon de Liverpool, tendo como logotipo um calunginha do ex-beatle e o slogan (para que slogan em aeroporto?) “acima de nós apenas o céu”, uma citação da mais que besta letra daquela música que não há imbecil no mundo que não ache maravilhosa, a tal da “Imagine”.

Resultado: só chamam o raio do aeroporto de “Imagine”.

O Galeão sempre será para mim o aeroporto do Galeão, e nunca, jamais, em tempo algum, aeroporto Tom Jobim, inclusive porque adoro o “Samba do Avião”, que fala em “aterrar no Galeão” e não “aterrar no Tom Jobim”.

Por motivos semelhantes, ou beirantes, sou mais “Bar Veloso” do que “Garota de Ipanema”.

Pelas bandas de cá, quase que mudaram o nome da ruela de Penny Lane, sempre em Liverpool, aquela que deu nome a uma musiquinha bem superior à “Imagine”, para uma outra tolice qualquer, só porque um cavalheiro de sobrenome Penny andou metido em negócios, na época lícitos, do mercado escravagista.

E já que é para criar caso, volto ao Brasil, aterro no Galeão, e sugiro, tanto ao bar quanto ao aeroporto, o nome de Genghis Khan. Ou, se preferirem o nacionalismo, aeroporto Febrônio Índio do Brasil, Lampião, Corisco, por aí.

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