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Ivan Lessa: Voltar | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Levam aqui em Londres um filme do Almodóvar com esse título: Volver. Repertório do Gardel. Como todo bom tangão, fala em voltar com a frente acabrunhada, que 20 anos na vida de uma pessoa não é nada, recomecemos tudo outra vez, aqueles velhos compassos. Voltar é tema de que não se abre mão no cancioneiro (quase que eu digito songbook, à brasileira) internacional. Sinatra cantou que viajar é muito bom, mas que não há nada como voltar. Antonio Maria, pela voz de Dolores Duran, jurava que nunca mais ia fazer o que seu coração mandasse, que o lugar dele era ali, que fizessem conta de que nunca dali saíra. E assim por diante. Ir embora é uma constante, voltar outra. Agora, e que é da canção de quem volta das férias para casa? O bobão aqui não tem o que cantarolar ou botar na vitrola. Saí de férias. Um mês cravado. Há quase três décadas que pego no máximo três semanas. Exagerei. Na minha idade, exagerei. Ou me aposento logo, ou fico em menos de um mês de férias. Foi demais. Não tenho definitivamente o tal do bicho carpinteiro no corpo. Sou chegado a uma rotina: meu metrô, meu bairro, meu flat, minha poltrona, minha televisão, meus discos, meus livros, minha gata. Aposso-me do pouco que tenho, a ele me aferro e aí tenho, sem pauta e sem nota, minha canção, que é a de ficar – como um bobo alegre. Com que então voltei. Para isso tudo que enumerei. Depois de rodar a chave na fechadura, a porta se abrir, a gata quase me derrubar e eu ter de dar uns trocados a mais para o motorista me ajudar com as malas, dedico-me à tarefa de desfazer a mala, que eu não sou besta de levar mais de uma. Ah, sim! Dada às novidades na frente terrorista, o tubo de pasta de dente teve de ficar na alfândega lisboeta. Eu não pretendia fazer mal a ninguém com ele. Ainda dava para umas boas dez escovadas. Que aproveitem os caros amigos lusos. Jogo na cesta de lavar roupa para a “mulher a dias” (sim, é portuguesa residente em Londres. Conhece minha pasta de dente, sabe que eu não faria mal a ninguém com ela), “dona”! Maria, que vem na sexta-feira. Boto a roupa de ficar em casa, que juro que não são calção e camisa do Botafogo e vou ver o que há na televisão. Levei séculos, mas acabei descobrindo que eu gosto mais de tevê do que meu semelhante. Conheço por demais meu semelhante. A televisão é apenas chata e sabe manter a distância. Ou eu sei manter a distância, já que tenho controle remoto e ela não. Chove lá fora, para voltar ao nosso cancioneiro e Tito Maddi. Chove pesado. Um barulho banheiro. Interrompo a tolice que via e vou conferir. Tudo bem. Só para me dizer que eu estava em casa, para me receber com o merecido estardalhaço, o teto do banheiro desmoronara. Para valer. Um escombro só. Palpitações, telefonemas para os serviços de emergência, ineficiências me cumprimentando. Limpei o que pude. Localizei bombeiros e serviço de emergência da velha casa onde tenho meu terceiro e velho andar. Fim de semana de carnaval em Notting Hill. Todo mundo de camisa amarela desaparecendo com sorrisos de ironia nos turbilhões das galerias (cancioneiro de novo, Ary Barroso, Camisa Amarela). Só na terça-feira agora, me respondem em uníssono de samba-enredo. Aguardarei. Afinal. Cheguei. Estou em casa. Faz Londres – a nova Londres – de novo. |
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