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Ivan Lessa: Lugar só em pé | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Bem que eu estava achando qualquer coisa de diferente em Londres. Apesar da turistália começar a se mandar, e a temperatura baixar para lá em torno dos 20 graus, quando o outono começa a deixar cair (tudo), comecei a notar um pouco mais de gente nos quarteirões que percorro (poucos, muito poucos), nos metrôs que pego (dois por dia). Vá lá que seja: continuam, senhoras e senhores na segunda idade, a me oferecer seus lugares. Minha terceira idade geme, ainda que em silêncio, mais alto. Deve ser minha expressão de quem voltou das férias. Em verdade vos digo: assim, de olhadela, eu diria que tem mais gente por esta cidade do que quando me mandei, em julho. Faço questão de frisar que se trata de gente com endereços, adereços e posturas fixados nesta terra, talvez até mesmo alguns dos documentos em ordem. Esta ao menos de mais um passageiro. Essa multidão me preocupa. Londres não foi feita para multidões. Para isso estão aí os campos de futebol e os ocasionais concertos ao ar livre. Mesmo assim, olhe lá! As multidões londrinas foram de flores, passam agora a ser de folhas mortas. Sem poesia: as folhas – os jornais, gente – me contam a história. Ao que parece, no ano passado perto de 250 mil pessoas deixaram Londres em busca de paz e sossego (também pode ser encrenca, que encrenqueiros londrinos muitos os há), ou no campo ou no sul da França ou qualquer cidade da Espanha que tenha sangria e pub onde sirvam o tradicional breakfast britânico. Rompendo barreiras O Centro Nacional de Estatísticas revela que 2005 foi um ano curioso. Pouco emblemático, para usar de uma palavra que eu adoraria ver em desuso imediatamente. 250 mil deixaram Londres mas chegou gente que não acaba mais – e decidida a ficar. No cômputo geral, houve um aumento de 1,2% na população da cidade, que pela primeira vez chega a mais de 7 milhões e 500 mil pessoas. E vêm aí romenos e búlgaros às pencas, cortesia do ingresso de seus países na Comunidade Européia. O Reino Unido também passou para alguma edição especial do Livro Guinness de Recordes: atingiu a perigosa barreira dos 60 milhões. Entendo de um bocado de gente, embora nunca tenha dado uma espiada na alma de ninguém. Entendo desse bocado como pura e simples massa humana. Se humana é uma massa de 60 milhões. Até outro dia mesmo, eu vivia num país onde havia 50 milhões, todos em ação. De repente, num piscar de olhos militares por trás de um ray-ban e debaixo de um quepe, passaram a 100, 150 e, logo, logo, chegarão aos 200 milhões. Por trás das devidas barreiras, claro. Acreditem-me: vai dar besteira. Muita gente sempre dá besteira. Pouca gente já é chato, imaginem em milhões. Todos querendo comer, beber, morar em casa com teto, dar entrada no hospital, fazer filhos, ir até a esquina, todos esses chiquês a que a humanidade está sujeita. Ficarei cada vez mais em casa. Principalmente agora que começou a nova série de “Os Sopranos”. |
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