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Ivan Lessa: O fim da gravata | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Nunca fui homem de gravata. O tempo que usei era porque me forçavam. O emprego na agência de publicidade no Rio. Uma ou outra circunstância mais metida a besta. Ridículo mesmo era ter de botar gravata para ir ao cinema no Centro da cidade. O Palácio e o Vitória exigiam gravatinha de menino de 14 ou 16 anos. Friso que já estávamos, e há muito, na era do cinema falado. Mal acreditei de alegria quando o bom senso – ou seria falta de modos? – me proporcionou a oportunidade de ir e voltar e no trabalho trabalhar de camisa com colarinho aberto: sem gravatas, sim senhor. Chegara, enfim, ao jornalismo. Claro, acabei demitido por incompetência, mas – e que se sublinhe o fato – tudo se passou sem gravatas. Nem em meu pescoço nem em pescoço de quem me demitiu. Demitiu, aliás, me abraçando muito, pois assim, amigavelmente, se passam nossas sacanagens. Dou uma chegada ao Houaiss. Lá está o que eu já sábia: gravata vem de cravate, soldado. E “originalmente os soldados croatas constituíram um regimento de mercenários desde o reino de Luís XIII (1649-52)”. E que, ainda como hoje, tratava-se de uma tira de tecido usada no pescoço. Quer dizer: tudo culpa dos croatas e dos franceses que acharam chiquérrimo botar aquele troço em torno do pescoço. Não havia na época um pré-freudiano para explicar à turma que o acessório masculino em volta do pescoço não era mais do que um grosseiro e ostentatório símbolo fálico. Símbolo fálico, para mim, é mais embaixo, com o perdão da má palavra. Eu e a gravata Desde que estou em Londres, usei gravata duas vezes. No jantar de despedida de minha mãe e marido na embaixada brasileira, quando o casal se mudou para Lisboa, e no casamento de minha filha. Ponto. Infelizmente, não me esqueci de como se dá o nó. Que não era o à Lavallière, que exige gravata larga e termina em laço bufante, mas sim o Windsor, um anglicismo a que aderi desde que eu vi ou num filme ou numa revista americana. De resto, não abotoo os dois primeiros botões da camisa, mesmo de paletó ou blazer (como no instante destas mal digitadas). Que fique patente, que se alardeie o fato de que eu, o boneco aqui, não – repito: não – uso gravata. Na verdade, acho meio tolo essa história toda, e também não fui de col roulé, quando esta foi moda, lá pelos anos 60 e 70. Era, de certa maneira, uma sutil referência aos símbolos fálicos. Mais ou menos, como um cara dando o pala de que passara por Marrocos e lá então – clique, clique! – fora-se o bimbão. A queda da gravata Regozijo. Os alfaiates, ou seja lá quem for o responsável pela indústria da gravata, estão em pânico devido aos dados oficiais. A proporção de profissionais liberais (ou mesmo conservadores e direitistas) caiu de 70%, em 1996, para apenas 56% agora, em 2006. A coisa não para aí. Apenas 28% de empresários compraram uma gravata nos últimos 12 meses. Os arquitetos, uma gente com mania de inovação, lançaram o grande desafio: em 2005, apenas 16% deles se deram ao trabalho de entrar numa loja e escolher um croata, digo, uma gravata. Mas não fica claro se foram as mulheres dos arquitetos que compraram o decadente acessório. Na minha opinião, foi admiradora. Quanto à questão do que constitui bom ou mau gosto na escolha de uma gravata, não entro nessa, não exponho meu pescocinho. Contento-me em regozijar com a saída de moda da (só pode ter sido) improvisação malsã do tal do regimento croata. | NOTÍCIAS RELACIONADAS Ivan Lessa: O fim da gravata08 setembro, 2006 | BBC Report Ivan Lessa: Loura ambição06 setembro, 2006 | BBC Report Ivan Lessa: Juventude perdida04 setembro, 2006 | BBC Report Ivan Lessa: Lugar só em pé01 setembro, 2006 | BBC Report Ivan Lessa: Voltar30 agosto, 2006 | BBC Report Ivan Lessa: Férias24 julho, 2006 | BBC Report Ivan Lessa: Calor21 julho, 2006 | BBC Report Ivan Lessa: A grama debaixo, o céu acima19 julho, 2006 | BBC Report | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
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