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De taras e museus | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Eu já disse em mesa de bar e casa, eu já escrevi em internet e papel jornal: museu é um perigo para mim. Museu é um perigo, melhor dizendo, para nós dois, o museu e eu. Considero-me, e a maior parte das pessoas que me conhece também, um senhor ajuizado, quase que pacato. Sim, sim, um cara que já fez das suas, mas que, finalmente, sossegou, o tempo se encarregou de dar aquele jeito que só tempo sabe e pode dar. Deixei até de fumar há cinco anos e não ameaço mais nem garçom nem chofer de táxi, inclusive, e principalmente, porque eu acabaria apanhando feito cão ladrão. Isso foi decisão minha e não do tempo. Jogo e cubro minha cabeça verdadeira de confete imaginário. Certas coisas porém cismam de não soltar a gente. Ficam lá mordendo nossa perna e rosnando feito um cachorro chato. Ou então, pregam-se a nosso peito como um emplastro “Sabiá” irremovível e exposto aos olhares de um público não-pagante. Abrindo o jogo Hoje, aqui e agora, mais uma vez, abro o jogo. Confesso o drama vil, hediondo mesmo, que se passa entre mim e todo museu que seja ao menos medíocre. Como toda coisa complicada, trata-se de algo de aparência simples em sua narrativa. Eu entro num museu, principalmente num museu com uma bela e renomada coleção de quadros, e, em cinco minutos, estou banhado de suor frio, temendo que o velho e inexplicável vício – mania? Neurose? – se manifeste a qualquer momento. Levem-me, se amam o perigo, ao Louvre, por exemplo. Ou à National Gallery aqui em Londres. Acompanhem-me e meus temores e tremores até a sala onde se encontrar a mais renomada obra de arte ali exposta: a Mona Lisa ou a Madona das Pedras, para ficarmos apenas dentro dos mistérios (eu sou um deles) de Leonardo da Vinci. A primeira vez que o fenômeno imundo se manifestou foi com a Gioconda. Louvre antigo, 1956 ou 57. Eu assuntei a bruta e, de repente, me deu um negócio, peguei distância, abaixei a cabeça, rosnei, escavaquei o mármore do chão como se fosse terra, e eu patas tivesse, e, não fosse a agilidade física e mental do amigo que me acompanhava, teria partido na direção da chamada “obra prima” (insisto nas aspas, pois estou lidando com uma tara) como parte o touro ferido na direção geral do toureiro e sua capa vermelha. Era eu ou ela. Felizmente, não fomos: nem um, nem outro. A vontade, no entanto, persistiu. Persiste ainda, para ser franco, mas não general ou Francisco. Não procurei qualquer terapia. Sequer me preocupei com a descoberta em mim mesmo de semelhante abominação, como se um dia acordasse e me visse com sete dedos no pé esquerdo ou uivando e criando cabelos pelo corpo inteiro em noite de lua cheia. Apenas, para o bem de todos, deixei de ir a museus. Por um triz Esta semana, um amigo, de passagem por Londres, insistiu em me convidar para ir visitar com ele a exposição de Velázquez, na National Gallery, ali bem de frente para a praça Trafalgar. Depois poderíamos comer qualquer coisa, lá pelo centro, o West End, mesmo. Fui obrigado a recusar. Recusar e mentir. Inventei uma longa história que envolvia enfisema, pé inchado e bengala quebrada. Consegui me safar. Mas minha museológica tara – e só posso chamar de tara – tenho vergonha de confessar. Pelo menos de viva voz. Como penitência, então, resolvi por os pontos nos Is aqui neste espaço que me aloja, e onde, espero, não estou próximo a nenhuma obra de arte. Da história, sempre otimista, procuro extrair algo de bom e termino encontrando: as pessoas podem passar muito bem sem museu. Com bengala e enfisema até, mas sem Da Vinci ou Velázquez. |
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