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Atualizado às: 01 de novembro, 2006 - 09h19 GMT (06h19 Brasília)
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Meu vício é você
Ivan Lessa
Não faço parte dos viciados anônimos. Dos chegados a um carteado. Eletrônico ou não (“Meu nome é Ivan e eu sou viciado em pôquer eletrônico”).

Já tendo passado pelas agruras, ou delícias, de quase 50 anos fumando feito um louco, sei do que se trata. Parei no peito, na raça e na valentia. Sem goma de mascar ou esparadrapo de nicotina. Sem força de vontade também.

Parei por cansaço. Estava me enchendo o saco e não satisfazia mais às necessidades de minhas papilas gustativas.

Mantenho, no entanto, meio na moita, um vício. Eu jogo pôquer na Internet quase todo dia. Pouco tempo, menos de uma hora. Mas estou sempre lá batendo ponto.

Esclarecimento

Batido este ponto, cabe um esclarecimento. O pôquer é de mentirinha. Descobri um site, cujo nome não divulgarei - ao contrário das centenas de cigarrinhos que me filaram e de boa vontade cedi -, onde se pode jogar à vontade com o vil metal de brincadeira.

Quer dizer, um metal nobre, em nada vil, viu? De 48 em 48 horas, o distinto, depois de se registrar, dar o endereço eletrônico e pegar um codinome, pode passar na caixa e pegar mil dólares fictícios.

Depois, movimentar-se pelo aprazível sítio, procurar o tipo de jogo (o meu é pôquer, variação Texas Hold´Em), uma mesa com lugar e, então, quase que literalmente, tacar ficha.

São mesas com 10 pessoas, cada uma correspondendo a um tipo físico diferente. Tem duas vamps, um gordo careca de camisa havaiana, um cara de smoking, um crioulo, um caubói, e assim por diante.

Embaixo, de banda, uma janela aberta para papo, se alguém quiser. Em geral, ninguém quer. Joga-se em silêncio, ou, ligando-se o som, com um rumor distante de cartas e fichas rolando.

Ah, sim, claro. Quando você se registra, dá (mas não creio que seja obrigatório) a cidade de origem. Eu lá estou como se pertencente à área de Londres, pois só minto (ou blefo) na hora do pega pra capar.

Aliás, é a única restrição feita a esse pôquer eletrônico. Não sendo para valer, a tendência é tratar a “mão” que se joga aos pontapés e ir em todas. Quando a graça do pôquer é praticar as disciplinas da paciência e da intuição e, só depois, contar com o sorriso da sorte. Mas a turma sabe disso e se comporta à altura.

O sonho vai acabar?

Sei que em outras mesas do site, a jogatina corre solta. Para valer. Aceitam cartão de crédito na roleta, no baccarat, nas dezenas de outras variedades de pôquer.

Detalhe com empáfia e soberba; depois de 4 anos, tenho uma frente de 118 mil dólares. Por isso me danei quando soube que a classe política quer ou acabar ou regulamentar a jogatina eletrônica. Vem besteira aí.

Há, no Reino Unido, um milhão de jogadores eletrônicos, cada um deles gastando um mínimo de perto de dois mil dólares por ano no vício de sua escolha.

Os britânicos constituem um terço dos jogadores cibernéticos europeus. Isso preocupa a classe política. Um número cada vez maior de mulheres frequenta os sites de jogatina.

O que também preocupa a classe política. Mulher ter boa parte da tarde livre faz sentido. C´est la vie. Um carteado, pra valer ou de brincadeira, é melhor do que ficar bebendo vinho branco barato e olhando para as paredes da cozinha.

No mundo inteiro, há perto de 2300 sites eletrônicos onde as hienas do pano verde informático podem gargalhar e nos levar o rico dinheirinho ou um tempinho à oa.

Claro que a classe política tinha que empombar. Aruba que se cuide. Dos tais 2300 sites de jogatina, 25% tem sua sede em Aruba. Quem sabe? Vai ver quase toda tarde eu dou uma chegada a Aruba sem saber.

De qualquer forma, com político no meio, acabou a brincadeira. Ficarei fechado em copas até alguém der uma pala ou aparecerem cartas melhores.

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