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Bagas brasileiras | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
A cachaça rola em Londres. Se é que cachaça rola. Que eu me lembre, só depois da quinta. Glug, glug. A cachaça pegou principalmente em forma de caipirinha. A caipirinha, para quem entende do traçado (outro drinque maroto), é meia por sobre a bebida para moças. Caipirosca, com C ou K, nem falar. É pra se tomar à antiga e brega: com o dedinho levantado. Estou falando em nome de todos os bebuns sérios que conheço. Ou melhor, conheci. Já subiu tudo. Conseguiram o que tanto almejavam: estão altos. Altíssimos. Os que sobraram, não entendem de computador, não têm dinheiro para ligação telefônica internacional e, além do mais, estão todos dormindo na mesa do bar. Deus os abençoe. Chega o açaí Rola agora em Londres algo mais inofensivo que a cachaça. Trata-se do açaí, que eles escrevem assim mesmo, muitos se dando ao duro trabalho de grafar com cedilha (um penduricalho exótico como um brinco de Carmen Miranda) e o acento no lugar devido. Coisa de gente acostumada a beber cidra. Outro dia mesmo, numa daquelas revistas coloridas que vêm com o jornal no fim-de-semana (e invariavelmente sem uma matéria decente para a gente ler) havia uma meia-página sobre o açaí. A reportagenzinha, chamemo-la assim, vinha com uma foto a quatro cores de um cesto cheio de açaí. Que, no texto, com a maior intimidade, eles vão logo de cara chamando de “berry”. “Berry” para mim é o “strawberry”, ou morango, o “blackberry”, instrumento eletrônico que virou moda, “raspberry”, nossa amora, e por aí afora. No meu entender, açaí, apesar de minha pouca intimidade com ele, é fruta, feito tanta coisa e tanta gente em nossa terra, onde se plantando tudo, e quase todo mundo, dá. Como sou teimoso, antes de passar da primeira linha do texto, fui aos dicionários. Lá estava, logo no primeiro, “berry”= baga, grão. Discordo violentamente. Baga, na minha horta interior, é aquilo em que a jaca, mal cheirosa como o quê, leva em penca debaixo de seu repelente aspecto exterior. Sim, é verdade, eu odeio jaca. Fui me embora do Brasil por causa da jaca. Baga também, segundo o Aurélio, é um fruto simples e carnoso, indeiscente (está lá, não briguem comigo), frequentemente comestível. E dá como exemplos o tomate, a uva e o mamão. Honestamente eu jamais chamaria qualquer um dos três de “baga”, quanto mais “indeiscente”. “Indeiscentes” eram alguns dos espetáculos levados na praça Tiradentes, no Rio dos bons tempos e péssimos costumes. Ah, essa é boa: o Houaiss também dá “baga” como um sinônimo, em certas regiões, de cachaça. Vivemos num mundo estranho onde as sincronicidades jungianas são tão comuns quanto… quanto o açaí agora em Londres, para aproveitar a deixa e retomar o assunto em questão. O milagre em ação Em vinte e poucas linhas, Lydia Slater informa a seus leitores que o açaí, essa miraculosa baga (vá lá que seja) amazônica é capaz de tudo, menos mudar o pneu de um carro. E diz que os brasileiros e brasileiras, uma gente alta, morena, jovem e sestrosa, deve muito do que é, para não falar da energia constante gasta na sucessão de festas que constitui suas vidas. O açaí, explica Ms Slater, contém galões e mais galões de antioxidantes ômegas 6 e 9 (que bichos são esses?), dez vezes mais do que se encontra nas uvas pretas. Não esquece a simpática propagandista de acrescentar que o açaí ainda é rico em vitaminas, ferro, cálcio e fibra e que, em Londres, já é chamado, na intimidade dos lares, de “botox em garrafa”. No Reino Unido, há à venda mais de 3 marcas de bebidas contendo açaí. Cachaça, e boa, que eu saiba, só uma, e, mesmo assim, com embalagem para damas de fino trato. A cachaça “Onde Vais Tu, Garboso Infante?”, que era a de minha preferência, ninguém mais fala nela. De certo foi toda derramada para algum santo obscuro. |
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