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Você sabia? | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Você sabia que o ponto mais alto do Brasil é o Pico da Neblina, no Amazonas, e não o Monte Roraima? Você sabia que a baleia azul é o maior mamífero do mundo? Você sabia que eu não sabia que você sabia que a vida é tão boa? Mentira. Essa última aí é música da época da bossa nova. Carlinhos Lyra e Ronaldo Bôscoli: “Se é tarde me perdoa”. Eu estava indo, ou vindo, de cultura de almanaque. Ou de informações dadas entre um minuto, ou por aí, da Rádio Relógio, que deve ter acabado, como tudo mais remotamente analógico. Sofríamos todos, em tempos idos, da proverbial sede de conhecimento. Que a gente matava, entre outras coisas, tomando como se fosse água carbonatada Hidrolitol (conhecem? Os mais velhos hão de estar lembrados), nos almanaques, como disse, ou ainda nas nossas pobres palavras cruzadas, onde se aprendia que Ur era uma cidade na Caldéia em que vivera Abraão, aliá a mulher do elefante e aia ama-seca em hindu – além do nome da família de várias plantas com vogais nos galhos e ramos os mais inesperados. “Ah, essa falsa cultura!”, dizia o bordão criado por Vão Gôgo, que vocês podem e devem chamar de Millôr Fernandes, sempre tirando o chapéu. Não é que ela fosse falsa. Era rasa e inútil, como quase toda cultura. Só não podia ser rasa, e muito menos inútil, se você fosse participar, sem maracutaia, no programa “O Céu é o Limite”, animado pelo Jota Silvestre. Mas, dizem as péssimas línguas, a maracutaia existia. Donde… No auditório da Rádio Nacional Culto mesmo era Romário, “O Homem Dicionário”, e continuo pescando, descalço e com as bainhas arregaçadas, na maré vazante de nossa cultura popular. Não me escapa ao olho a bolha deixada na areia molhada pelo tatuí em fuga, ou o brilho da moeda enferrujada de um cruzeiro. Romário sabia tudo. Era um quadro do programa César de Alencar, aos sábados de tarde, na Rádio Nacional. Depois de Marlene ou Emilinha cantarem, a orquestra ou o regional precisavam descer até a praça Mauá e, no bar do edifício da PRE8, tomar seu Hidrolitol (acho) para molhar o goto e descansar um pouquinho. O esquema de Romário era simples: o auditório, qualquer pessoa do auditório, passava uma semana pesquisando nos dicionários palavras as mais complicadas possíveis, feito “plebiscito”, do célebre conto de Artur Azevedo. Chegava o sábado e, então, ia levantando um aqui, outra ali, dando em voz alta e bem enunciada o seu desafio, e Romário, impávido, derrubava concorrente após concorrente, dando as mais que corretas e completas definições, de “agnome” a “zinzilular”. Acompanhei os dias de glória de Romário. Não sei que fim levou. Espero que tudo na vida tenha corrido bem para ele. Gostaria de saber mais a seu respeito. Eis a questão E aí está. Eu sou um curioso pelas coisas que passaram e o que se passou com elas e conosco. Zelamos muito mal por tudo que já houve. Não vejo muita diferença entre Romário e o Palácio Monroe, que derrubaram no Rio. São monumentos diferentes. E aí está, dizia eu. Vivo num país onde metade de todo mundo quer saber uma coisa e a outra metade sabe a resposta. Nestes tempos informáticos, googleio e inauguro outros verbos de engenhos de busca. Fiquei sabendo agora que a “Yahoo Answers” já respondeu, só neste ano, até agora, a 65 milhões de perguntas. Fui lá. Yahooei. Tentei Romário. Com e sem “Homem Dicionário”. Juntei, esperançoso, rádio e nacional e PRE8. Nada. Deu mesmo, e muito, aquele nosso jogador de futebol forte e baixinho. Continuarei buscando. E, em homenagem a Romário, conferi no Houaiss e no Aurélio, ambos informáticos, “agnome” e “zinzizular”. Sei agora o que querem dizer e não passo adiante. Romário tiraria de letra. Quero, no entanto, um último gol da vitória para o bom, o querido Romário, o Homem Dicionário. |
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