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Atualizado às: 17 de novembro, 2006 - 08h57 GMT (06h57 Brasília)
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Ivan Lessa: Dos nomes das pessoas
Ivan Lessa
Meu pai se chamava Orígenes. Não é um nome comum. Ele não morria de vergonha. Deu até uma forcinha para outros Orígenes que por ventura houvessem pelo Brasil do século passado, que foi o dele.

Ele não gostava nada era do segundo nome, que está nas certidões, mas que sempre procurou esconder: Ebenezer.

O de família – dele e meu – também não é figurinha fácil: Themudo. Sempre procurou ele, sempre procurei eu, saber a origem.

Cidade em Portugal, feito Lessa, ou Leça, seguramente não era nem podia ser.

Mexe aqui, mexe ali e, naquele grande vazio que era a época pré-Internet, só restavam as pesquisas superficiais, quase sempre baseadas em instinto, sentido comum e uns poucos livros, para o Themudo.

Das duas, uma, chegamos, em épocas diferentes, à conclusão: ou era uma corruptela do italiano “temudo”, temido, que nos agradou um pouco, embora desconhecendo o que e por quê inspirava medo nosso pressuposto antepassado.

A outra possibilidade era ser de origem hebraica, variação de Talmude, um dos livros sagrados básicos da religião judaica. Talmude! Taí, até que era bacaninha.

Nisso e naquilo outro, sempre fomos, à nossa maneira, admiradores do povão, onde, na vida, nós dois encontramos tantos amigos, e, nas letras e artes, tanta gente a admirar. Seria melhor que inspirar medo a aldeões italianos na, digamos, Idade Média.

Escalafobético

O Lessa gostava de contar um caso que se passara com ele em sua juventude.
Parêntese para explicação (ou falta de explicação): sempre chamei meu pai, em vida e depois que se foi, de Lessa. Não sei o porquê.

Não, Freud não explicaria. Já tive teorias. Hoje não tenho mais. O Lessa era o Lessa e acabou-se, deixou foi saudades. Coisas dos nomes.

Mas voltando à história. O Lessa dizia que, de certa feita, quando moço, no bonde, em São Paulo, vinha de papo (ou talvez tentando levar no papo. Ele sempre foi um homem maroto e discreto) com uma moça, possivelmente não muito agraciada pelas luzes.

Na hora de trocarem os nomes, se apresentarem formalmente, para depois então, quero crer, irem a uma leiteria ou sorveteria, ela deu sua graça, possivelmente Maria de alguma coisa ou outra, como já foi a tão saudável moda entre nós.

Ele se apresentou dizendo a verdade, sempre um erro em certas horas: admitiu-se Orígenes. E o Lessa contava, rindo muito, que nesse ponto a jovem exclamou, “Ih, que nome mais escalafobético!”. Que está no Houaiss, no Aurélio e espouca furiosamente no Google. “Escalafobético” é bom.

Escalafobetizando ainda mais

E já que eu googlei, segui em frente e dei com um “site” só de nomes escalafobéticos. O organizador da lista frisa que são nomes registrados em cartórios brasileiros, divulgados inclusive pelo extinto INPS, e que o objetivo não é ridicularizar ninguém. Apenas registrar.

Fizéssemos tudo sempre assim. Enfim, fiquei algum tempo lendo, imprimi e passo adiante uns agora, eu que só me lembrava, em matéria de bizarria, do famoso, em minha infância, Um-Dois-Três de Oliveira Quatro.

Aí vão alguns nomes escalafobéticos para fazer companhia ao Lessa.

Adoração Arabites – Aeronauta Barata – Antonio Camisão – Bananéia Oliveira de Deus – Bandeirante do Brasil Paulistano – Barrigudinha Seleida – Bende Sansde Branquinho Maracujá – Brandamente Brasil – Danúbio Tarada Duarte – Deus Magda Silva – Dezêncio Feverêncio de Oitenta e Cinco – Flávio Cavalcante Rei da Televisão – Fridundino Eulâmpio – José Xixi – Jotacá Dois Mil e Um – Letsgo Daqui – Maria Privada de Deus – Maria-você-me mata – Placenta Maricórnia da Letra Pi – Primeira Delícia Figueiredo Azevedo – Produto do Amor Conjugal de Marichá e Maribel – Terebentina Terepenis e mais, muito mais. Saiam buscando por aí, quem graça achar.

E os ingleses que debocham do Bob Geldof porque tem uma filha chamada Peaches e outra Pixie? Para não falar do David e da Victoria Beckham, pais de um Brooklyn e uma Cruz?

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