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Ivan Lessa: Dos nomes das pessoas | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Meu pai se chamava Orígenes. Não é um nome comum. Ele não morria de vergonha. Deu até uma forcinha para outros Orígenes que por ventura houvessem pelo Brasil do século passado, que foi o dele. Ele não gostava nada era do segundo nome, que está nas certidões, mas que sempre procurou esconder: Ebenezer. O de família – dele e meu – também não é figurinha fácil: Themudo. Sempre procurou ele, sempre procurei eu, saber a origem. Cidade em Portugal, feito Lessa, ou Leça, seguramente não era nem podia ser. Mexe aqui, mexe ali e, naquele grande vazio que era a época pré-Internet, só restavam as pesquisas superficiais, quase sempre baseadas em instinto, sentido comum e uns poucos livros, para o Themudo. Das duas, uma, chegamos, em épocas diferentes, à conclusão: ou era uma corruptela do italiano “temudo”, temido, que nos agradou um pouco, embora desconhecendo o que e por quê inspirava medo nosso pressuposto antepassado. A outra possibilidade era ser de origem hebraica, variação de Talmude, um dos livros sagrados básicos da religião judaica. Talmude! Taí, até que era bacaninha. Nisso e naquilo outro, sempre fomos, à nossa maneira, admiradores do povão, onde, na vida, nós dois encontramos tantos amigos, e, nas letras e artes, tanta gente a admirar. Seria melhor que inspirar medo a aldeões italianos na, digamos, Idade Média. Escalafobético O Lessa gostava de contar um caso que se passara com ele em sua juventude. Não, Freud não explicaria. Já tive teorias. Hoje não tenho mais. O Lessa era o Lessa e acabou-se, deixou foi saudades. Coisas dos nomes. Mas voltando à história. O Lessa dizia que, de certa feita, quando moço, no bonde, em São Paulo, vinha de papo (ou talvez tentando levar no papo. Ele sempre foi um homem maroto e discreto) com uma moça, possivelmente não muito agraciada pelas luzes. Na hora de trocarem os nomes, se apresentarem formalmente, para depois então, quero crer, irem a uma leiteria ou sorveteria, ela deu sua graça, possivelmente Maria de alguma coisa ou outra, como já foi a tão saudável moda entre nós. Ele se apresentou dizendo a verdade, sempre um erro em certas horas: admitiu-se Orígenes. E o Lessa contava, rindo muito, que nesse ponto a jovem exclamou, “Ih, que nome mais escalafobético!”. Que está no Houaiss, no Aurélio e espouca furiosamente no Google. “Escalafobético” é bom. Escalafobetizando ainda mais E já que eu googlei, segui em frente e dei com um “site” só de nomes escalafobéticos. O organizador da lista frisa que são nomes registrados em cartórios brasileiros, divulgados inclusive pelo extinto INPS, e que o objetivo não é ridicularizar ninguém. Apenas registrar. Fizéssemos tudo sempre assim. Enfim, fiquei algum tempo lendo, imprimi e passo adiante uns agora, eu que só me lembrava, em matéria de bizarria, do famoso, em minha infância, Um-Dois-Três de Oliveira Quatro. Aí vão alguns nomes escalafobéticos para fazer companhia ao Lessa. Adoração Arabites – Aeronauta Barata – Antonio Camisão – Bananéia Oliveira de Deus – Bandeirante do Brasil Paulistano – Barrigudinha Seleida – Bende Sansde Branquinho Maracujá – Brandamente Brasil – Danúbio Tarada Duarte – Deus Magda Silva – Dezêncio Feverêncio de Oitenta e Cinco – Flávio Cavalcante Rei da Televisão – Fridundino Eulâmpio – José Xixi – Jotacá Dois Mil e Um – Letsgo Daqui – Maria Privada de Deus – Maria-você-me mata – Placenta Maricórnia da Letra Pi – Primeira Delícia Figueiredo Azevedo – Produto do Amor Conjugal de Marichá e Maribel – Terebentina Terepenis e mais, muito mais. Saiam buscando por aí, quem graça achar. E os ingleses que debocham do Bob Geldof porque tem uma filha chamada Peaches e outra Pixie? Para não falar do David e da Victoria Beckham, pais de um Brooklyn e uma Cruz? |
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