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Prêmio Probel | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Até uma certa época, entre os moleques de minha rua, era paroxítono: prêmio Nóbel. Depois da pelada, discutíamos com a mesma verve demonstrada na contenda a justiça da farta distribuição de prêmios. Saiu muita briga, e briga feia, quando o contemplado com o prêmio de medicina ou química não era nosso favorito. Sim, éramos uma garotada estranha. Um dia, um de nós, o melhor aluno da escola pública, nos informou que a pronúncia correta era Nobél, ou seja, uma palavra oxítona, como em Colchões Probel, e que, se um dia a fôssemos escrever, deveríamos evitar qualquer tipo de acento, inclusive e principalmente o trema, embora a questão fosse gerada na Escandinávia. Ouvimo-lo com respeito e, só depois de alguns instantes, é que o cobrimos de porrada, para deixar de ser besta. Tristes são as lembranças da infância, nelas nenhum saudosismo. Seja como for, acatamos o menino e, desde então, foi só Nobel, sem acento, prêmio oxítono. Com o tempo, a discussão acalorada, cada vez que chegava esta época do ano – lembremos que no hemisfério sul é princípio de verão –, foi se tornando mais oral e menos física. Aceitamos os Nobéis (será esse o plural, perguntaria ao garoto que sabia tudo?) de literatura, de medicina, do que fosse. Desde 1953, torcíamos para que o Nobel de literatura fosse ou para Carlos Drummond ou para Jorge Amado. O pau aí saía entre as duas facções. Pau feio, aliás, dada nossa idade e parrudice adquirida na praia e nas academias de judô. Mas, no fundo, no fundo, levava-se na esportiva. A exceção era o Nobel de paz. Quando não deram para a imensa alma que foi o Mahatma Gandhi, ficamos uma fúria com os noruegueses. Sim, nossa cultura geral crescera com nossos bíceps. Sabíamos que o Nobel de Paz era o único que cabia à Academia Norueguesa escolher. Aos suecos, o resto. Talvez os noruegueses soubessem mais de paz que os suecos. Como entender a essa gente tão ou mais misteriosa quanto nós? Este ano, mais uma vez, senti falta da garotada da rua. Não deram o Nobel de Paz para um roqueiro, fosse Bob Geldof ou Bono. Kissinger, Arafat e Menachen Begin abocanharam, se é esse o verbo, a honraria, nossos homens de guitarra elétrica, percussão e paz não. Vontade de sair por aí e meter a mão na cara de um. Onde estão vocês, ó turma da pelada? |
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