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Jornal de ontem | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Sou do tempo em que, para tripudiar de alguém, dizia-se, “você para mim é jornal de ontem”. Digo “dizia-se”, mas – e olha outra expressão novinha em folha – isso é forçar a barra. Eu é que era o jornal de ontem. Ou seja, não tinha mais nenhuma utilidade, não constituía novidade, era “o” ultrapassado. As moças é que me deixavam de lado como o tal jornal de ontem. Na verdade, essas moças não liam jornal de dia nenhum naquela época. Vou hoje à forra e espalho que elas só liam notícia sobre crime de natureza sexual e, quando muito fácil, faziam as palavras cruzadas. Cidade na Caldéia com duas letras (Ur) era com elas. O resto não interessava. Pensando bem, vai ver é isso que queriam me dizer e só agora entendo. Eu não interessava. Como o jornal de hoje e de amanhã. Chato. Roupa nova Isso a propósito de que, esta semana, o jornal que eu leio há quase 20 anos apareceu de roupagem nova nas bancas e, por extensão, nas minhas mãos. The Guardian mudou completamente a fachada. Feito uma dessas moças que me superavam e que hoje, sou capaz de jurar, não saem de um bisturi de cirurgia plástica. Mudou de tamanho, de logotipo, de papel, tudo. A chamada mudança radical. Não é mais jornalão, broadsheet, nem tablóide. É, como o falecido presidente Kennedy, um Berliner, já que este é o nome que se dá ao formato. É feito aquele do Le Monde. Menor que um jornalão, maior que um tablóide. Cores em todas as páginas. Novos colaboradores, nova (evidente) paginação. Povo novidadeiro Ora, vivo num país onde, quando aqui cheguei, se orgulhava de ser avesso às mudanças. Um país conservador com “C” minúsculo. De alguns anos para cá, no entanto, passaram todos os britânicos a ser o povo mais novidadeiro do mundo. Feito nós, brasileiros; feito eles, americanos. Fiquei eu e um pugilo de bravos defendendo as cores esmaecidas de tudo aquilo que passou. Somos, aí, aqueles do toda e pega com acento circunflexo, e, aqui, do famoso chapéu coco, calça listrada e pasta de couro na mão a caminho da City. Primamos, em português e inglês, pela solidão e o olhar enviezado no meio da multidão. Confundem-nos com homens-bombas e, de uma certa maneira, estão certos: podemos explodir a qualquer momento. Recordar e parafrasear, que isso é que é viver: conforme dizia aquela personagem do Ronald Golias, “Vão pará com essas novidade aí?!” |
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