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Justiça dragoniana | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Os britânicos estão cada vez menos engraçados. Em suas excentricidades. Gostam das mesmas tolices tecnológicas que o resto do mundo gosta, vão às mesmas guerras estúpidas, assistem aos mesmos filmes chatérrimos. Deixaram de colonizar, passaram a se clonar. Ande por qualquer rua principal, de compras, e lá você encontrará as mesmas lojas, cafeterias e restaurantes que encontraria em Chicago ou São Paulo. Já lamentei e aqui mesmo, neste espaço, rasguei as vestes e cobri minha cabeça de cinzas: os homenzinhos de chapéu coco, pasta na mão e calças listradas não vão mais à City. Cederam espaço para uns rapazes antipáticos de cabelos armados na moda e ligados em iPods e laptops de ocasião. Contento-me com o que sobrou. Mesmo as falcatruas shakesperianas, seja em Stratford-on-Avon ou na teatrolândia do West End, eu agora as prezo. São enganações a que a pátina do tempo já embaciou, tornando-as quase que charmosas. Há no entanto os juízes. Por eles sou grato. Assinaria mesmo o Diário de Transcrições dos Tribunais, se a publicação existisse. Os juízes britânicos, talvez devido às suas perucas brancas, longas vestes vermelhas e arminho, perderam-se no tempo como se perdem, no baile de carnaval, as misteriosas odaliscas. Leio e admiro nas folhas o pronunciamento feito pelo meritíssimo Seddon Cripps, de apenas 63 aninhos, que, na semana passada, em tribunal onde se julgava crime de fraude, ao ouvir um depoimento de testemunha, interrompeu os trabalhos para perguntar: "O que é um "sofá-cama"?" – as aspas rolando pela corte como granadas sem pino. A pobre da testemunha, acabrunhada (é a única palavra), explicou com o devido cuidado. "Mas como é que um sofá pode virar cama?", insistiu a digníssima autoridade judiciária. Advogados de todos os lados, com o maior cuidado, explicaram. Ninguém mencionou – como são ignorantes – os sofás-camas Drago. Viva o juiz Seddon Cripps, que mantém a tradição! E viva o juiz Hubert Dunn que, em 2001, declarou em voz de tribuna de honra de cricket match, que nunca ouvira falar em Pelé. Juízes da Grã-Bretanha, não deixai a peteca, bola, ou sofá-cama (Drago ou não) cair, s'il vous plait! |
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