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Sarabanda | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Parece que foi ontem é tudo que houve há muito tempo atrás quando quase todo mundo ainda estava vivo. A frase desemboca quase que sozinha na página, meio cheia de si, pedindo que apareça uma fada boa que a transforme em citação digna de ir ao baile e dançar com o príncipe. Ela veio na natural, se natural é ler a revista Time americana e nela encontrar uma reportagem sobre o novo filme, Sarabanda, do velho Ingmar Bergman, agora com 87 anos. Tem 20 anos que Bergman não dirigia um filme. Toda sorte de lembranças vem à mente. O dia em que se debochou do amigo que, em matéria de Bergman, só conhecia a Ingrid. Quem conhece um e outra hoje em dia? Nesse ontem de há muito tempo atrás não se ia ver filme de Ingmar Bergman. Nós íamos ao Roxy, ao Ritz, ao Rian, a outros cinemas começando com outras letras que não R. Depois então batíamos papo sobre o filme. "Você viu o filme do Metro?" "Eu achei uma bomba o filme do Pirajá." "Semana que vem parece que tem um filme legal no Ipanema." Nós íamos ao cinema – definitivamente. Nós víamos filmes – indubitavelmente. Os filmes se passavam em cinema, e nós dávamos uma chegada lá para achar bom, ruim, mais ou menos. Não fora detonada em nossa proximidade uma assinatura do Cahiers du Cinéma. Nem mesmo dávamos bola para o homenzinho de O Globo, que saía, assistia, aplaudia de pé ou sentado os filmes do Roxy, Ritz, Rian etc. Um dia, sem mais nem menos, quase que sem a gente sentir, como sempre acontece, os filmes passaram a ser com gente. "Você viu o filme da Lana Turner?" "Você gostou do filme do Alan Ladd?" "Eu tenho ódio de todo filme do Bob Hope." O filme começava a se passar num cinema e, nele, no celulóide, conforme dizia um mais pretensioso, havia gente, com cara, corpo e nome. Era uma jogada no escuro ir ao cinema. Tanto podia ser o que hoje chamam de filme do Douglas Sirk quanto do Ingmar Bergman. Muito mais tarde é que diretor virou referência: Johns Ford e Huston, Fellini e Antonioni. Ou Ingmar Bergman. Mas aí havia necessidade de reforço. E tome Cahiers du Cinéma. Agora, devido ao adiantado da hora, resuma-se toda uma porção de vidas com a proposta inicial: vem um filme novo aí do velho Bergman. Tomara que passem no Odeon. |
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