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Atualizado às: 26 de setembro, 2005 - 06h38 GMT (03h38 Brasília)
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Bola de gude
Ivan Lessa
Camões tinha toda razão quando se referiu “à grande dor das coisas que passaram”.

O homem – incrível! – escreveu assim mesmo como citei. Num português tão brasileiro e atual como se fosse depoente alfabetizado em comissão de inquérito.

Vale hora da saudade. Claro que vale. É empunhar o pinho, tacar uma primeira posição e mandar a seresta no que há em matéria de voz. Não há saudosismo na jogada. Questão de referência apenas. Tá bom, vá lá que seja: reverência.

Na semana que passou cismei com bola de gude. Essas coisas batem assim. Poderia ser a coleção de balas Fruna ou estampas Eucalol, como já foram. Desta vez, deu bola de gude.

Queria me lembrar das regras, de onde joguei e com quem joguei. Nossa, seria possível jogar bola de gude em Copacabana? Mesmo há meio século? Era possível. Nada a ver com falsa memória.

Recorri à Anete, como gosto de chamá-la. Googlei lá: bola de gude. E não é que o danado do mecanismo de busca funcionou lindo como as bolas de gude das Lojas Americanas.

Um sítio (eu prefiro abrasileirar esses locais, sejam ermos ou não), o Jangada Brasil, em artiguete assinado por Luís Antônio Pimentel, me explicava tudo. Inclusive algo que nunca me ocorrera: que gude vinha do inglês “good”, já que crianças inglesas trouxeram o jogo para nós, feito um “football” despretensioso.

O “búrica” também descobri que era corruptela de “buraca”. Mais: que as palavras mágicas que eu tantas vezes berrara, “marráio, acompanha, feridô, sorrei”, nada mais eram do que “Feridor sou rei dentro e fora!”

Marráio, segundo o bom Pimentel, seria provável corruptela de “maus raios” ou “má raia”. Tenho minhas dúvidas. Segundo o Houaiss, viria de “marralhar”, ou seja, “teimar, insistir”. Parece-me mais provável.

As quatro páginas da “Jangada Brasil” dão um belo e reduzido vocabulário do jogo. Recomendo. Recomendo ainda mais a prática do – esse sim – nobre esporte.

Eu só queria agora um terreno baldio, um saquinho de bolas de gude (sem esquecer das bilhas) e dois meninos descalços (aceito mesmo com bicho do pé) para completar o velho cromo.

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