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Bola de gude | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Camões tinha toda razão quando se referiu “à grande dor das coisas que passaram”. O homem – incrível! – escreveu assim mesmo como citei. Num português tão brasileiro e atual como se fosse depoente alfabetizado em comissão de inquérito. Vale hora da saudade. Claro que vale. É empunhar o pinho, tacar uma primeira posição e mandar a seresta no que há em matéria de voz. Não há saudosismo na jogada. Questão de referência apenas. Tá bom, vá lá que seja: reverência. Na semana que passou cismei com bola de gude. Essas coisas batem assim. Poderia ser a coleção de balas Fruna ou estampas Eucalol, como já foram. Desta vez, deu bola de gude. Queria me lembrar das regras, de onde joguei e com quem joguei. Nossa, seria possível jogar bola de gude em Copacabana? Mesmo há meio século? Era possível. Nada a ver com falsa memória. Recorri à Anete, como gosto de chamá-la. Googlei lá: bola de gude. E não é que o danado do mecanismo de busca funcionou lindo como as bolas de gude das Lojas Americanas. Um sítio (eu prefiro abrasileirar esses locais, sejam ermos ou não), o Jangada Brasil, em artiguete assinado por Luís Antônio Pimentel, me explicava tudo. Inclusive algo que nunca me ocorrera: que gude vinha do inglês “good”, já que crianças inglesas trouxeram o jogo para nós, feito um “football” despretensioso. O “búrica” também descobri que era corruptela de “buraca”. Mais: que as palavras mágicas que eu tantas vezes berrara, “marráio, acompanha, feridô, sorrei”, nada mais eram do que “Feridor sou rei dentro e fora!” Marráio, segundo o bom Pimentel, seria provável corruptela de “maus raios” ou “má raia”. Tenho minhas dúvidas. Segundo o Houaiss, viria de “marralhar”, ou seja, “teimar, insistir”. Parece-me mais provável. As quatro páginas da “Jangada Brasil” dão um belo e reduzido vocabulário do jogo. Recomendo. Recomendo ainda mais a prática do – esse sim – nobre esporte. Eu só queria agora um terreno baldio, um saquinho de bolas de gude (sem esquecer das bilhas) e dois meninos descalços (aceito mesmo com bicho do pé) para completar o velho cromo. |
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