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Atualizado às: 21 de setembro, 2005 - 09h17 GMT (06h17 Brasília)
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Miss Fulana de Tal
Ivan Lessa
Quando aqui cheguei, há quase 30 anos, ela já estava lá, no térreo da casa vitoriana dividida em 5 flats, ou apartamentos.

Contrariando o que se diz dos ingleses – que são frios e distantes – apressou-se em se apresentar e dar as boas-vindas.

Chamei-a, inadvertidamente, de senhora, no que fui prontamente corrigido: era senhorita.

Nunca consegui, distante de seus ouvidos, claro, referir-me a ela como “a velha”, fosse do térreo ou do “jardim”.

Sempre foi “Miss”, seguido de seu sobrenome. Miss Fulana de Tal.

Não sei explicar meu distanciamento. Mistérios do estrangeiro.

Sei que eu não tinha papo com ela. E ela gostava de papo.

Em geral, para reclamar. De novos inquilinos, dos carros que buzinavam, dos lixeiros.

Nunca me falou, felizmente, de suas paixões.

Primeiro, o jardinzinho da entrada, onde, já que era de seu direito, passava horas com um chapelão na cabeça, luvas de borracha e os devidos instrumentos para cuidar de uma pequena árvore, algumas plantas, e umas flores, tudo muito do sem graça, a meus olhos.

Segunda paixão, de Miss Fulana de Tal, era pintar.

Digo paixão, mas devo estar romantizando. Eram apenas atividades.

Durante algumas semanas, no meio do verão, de certo abria uma outra arca e dela retirava o que precisava para praticar, no meio da rua, bem na entrada da casa, suas aquarelas.

Nunca me ocorreu parar e dizer qualquer coisa como “É, está bom”.

Na verdade, nunca olhei para suas aquarelas. Seria excesso de intimidade.

Abro o jogo: eu não simpatizava com Miss Fulana de Tal.

Para mim, ela só falava mal dos outros habitantes da casa e eu achava que deveria fazer o mesmo comigo e minha família.

Minha mulher levava papo com ela. Qual papo não sei, nunca perguntei.

Uma vez recebemos convite para uma exposição de suas aquarelas.

Minha mulher foi. Eu não.

Limitei-me, durante mais de 27 anos, a dar alô, chamar de senhora, sofrer invariável correção (“É senhorita”!) e estávamos conversados.

Morava sozinha.

Vez por outra recebia alguém. Parentes, talvez.

Lá estavam tomando chá, dava para ver da rua.

Miss Fulana de Tal morreu há coisa de umas duas semanas.

Não vi nota no jornal. Seus pertences estão enfileirados na mesa diante da janelona e, aos poucos, vão-se.

Para onde, não sei.

Assim como não sei de que e como se foi Miss Fulana de Tal.

Estaria mentindo se dissesse que ela me faz falta.

Digo a verdade quando noto que sua ausência perturbou um equilíbrio inexplicável que havia na entrada, no andar térreo, na casa, na cidade onde moro.

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