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Postes flagrantes e falantes | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Daí o poste virou-se para o casal, de pé, ali por perto, entretido, com as naturais dificuldades, nos rudes embates de Eros, a soldo, infelizmente, e, em meio a um clarão fantasmagórico, berra: “Parem! Essa atividade é ilegal, uma foto foi tirada e poderá ser usada em processo contra vocês. Retirem-se imediatamente daqui.” Não, não se trata de primeiro de abril. Nenhum bobo foi flagrado na casca do ovo. Trata-se de mais um engenho eletrônico destinado a combater o crime que prolifera nas ruas perigosas de certos bairros, ou seja, o vandalismo, o roubo, o tráfico de drogas e a prostituição nos lugares em que estas modalidades são populares e diminuem a qualidade de vida dos habitantes locais. Esta cena beirando a ficção científica já está ocorrendo em algumas cidades da Grã-Bretanha, tais como Glasgow e Birmingham. Aqui em Londres, no bairro de Camden, há dois postes fotógrafos falantes dando o aviso. Trata-se de uma concepção tecnológica nascida nos Estados Unidos e adotada com entusiasmo por certos cidades e bairros britânicos, conforme já disse. O nome da engenhoca montada em cima dos postes é Flashcam, há 52 em ação em todo o país, e foi bolada pela empresa chamada Q Star. Ainda não pegou um apelido popular, como “patrulha papparazzi”, ou coisa mais violenta. Na época devida, a inventiva marginalidade se encarregará de dar-lhe um apelido mais oportuno que o meu. De qualquer forma, além de não ver porque a ronda não pode ser realizada por dois policiais a pé, ou uma passagem rápida pelo local por um carro da polícia, não consigo entender como as câmeras do Flashcam conseguem distinguir os criminosos em potencial dos pacatos cidadãos vindos do pub ou indo para casa. O senhor Steve Galinsky, diretor da empresa aqui na Grã-Bretanha, alega serem os malfeitores aqueles que levam o susto maior, prontamente abandonando a cena de suas – vamos chamá-las assim – travessuras, sexuais ou outras que sejam. Eu continuo me preocupando com inovação científica zelando pelo comportamento moral dos cidadãos de uma sociedade. Como é que vai ser no dia em que um companheiro, vindo sossegado de um pub, morrer de infarto sob o escândalo de um Flashcam? Já vejo, num futuro não muito distante, processos contra postes fotográficos falantes. Muito justos, por sinal. |
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