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Atualizado às: 25 de março, 2005 - 10h51 GMT (07h51 Brasília)
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O sr. Coelhinho e seus ovinhos
Ivan Lessa
A Páscoa me traz memórias. Memórias que vêm bifurcadas.

Memória A, relativa ao Brasil. Memória B, relativa a Londres. Era a extraordinária graça de sair procurando os ovinhos que o senhor Coelhinho deixara escondidos, em lugares estratégicos, especialmente para eu encontrá-los.

Por favor, me entendam: eu tinha menos de 21 anos e a caça aos ovos de Páscoa não se dava quando de minha chegada da boate. Não, não. Foi no máximo até aos 10 anos. Cabe também aqui uma explicação. Tamanho foi, e é, meu respeito ao simpático bichinho que simboliza o renascimento espiritual e físico, que só sei me referir a ele como senhor. Senhor Coelhinho. E senhora Coelhinho, quando for o caso. Hoje, como outras infelicidades, sei que não havia coelho nenhum – com maiúscula ou sem maiúscula – escondendo ovinhos para eu encontrá-los. Eram meus pais, que, por copacabanices, eu nunca chamei de senhor ou senhora.

O que interessa é que os ovinhos eram escondidos pela casa e não era difícil encontrá-los. Limitadíssimo o número de lugares num apartamento de 2 quartos e 2 salas, mesmo que situado na Avenida Atlântica. Hoje posso confessar que eu pegava de estalo o lugar dos ovinhos, mas fazia uma cera só para alegrar a família. Criança é um bicho danado de hipócrita.

Os ovinhos de minha predileção eram aqueles de açúcar cande, com uma janelinha na ponta onde espiar uma cena espetacular de casinha, árvore e um pouco de grama, com sorte um arco-íris cobrindo a paisagem bucólica.

Isso é o que havia em matéria de Páscoa Memória A. A Páscoa Memória B é de Londres, como disse, e aí sou eu que saía pelo apartamento (bem menor que o do Rio) escondendo mínimos ovinhos de chocolate em lugares óbvios (mas não muito) para a menina de seus 4 ou 5 anos.

Gozado. Essas memórias, mais recentes, são mais duras de lidar. As da beira da praia, eu tiro de letra, como na pelada em frente ao posto 4 e meio.

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