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Vinil, vidi, vinci | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Segundo uma das falas mais citadas da história do cinema, escrita por Orson Welles para seu personagem Harry Lime em O Terceiro Homem, durante os 30 anos dos Borgias na Itália houve guerra, terror e assassinatos, mas, com isso tudo, teve lugar a Renascença, enquanto que 500 anos de paz e democracia na Suíça produziram… o quê? O relógio de cuco. Uma tremenda injustiça, segundo qualquer suíço. Agora mesmo, em meio a todo aquele dinheirão voando para o país, vindo de todas as partes do mundo, uma equipe de pesquisadores desenvolveu um novo sistema que recupera LPs riscados ou quebrados, considerados irremediavelmente perdidos. Isso graças a um desses processos científicos (mesmo o mais simples, como botar água para ferver na chaleira) que minha pobre mente riscada e quebrada jamais entenderá. Pelo que depreendo, o processo envolve microscópio e a fotografia dos sulcos de LPs antigos. Depois, como nos tempos de hoje, é só tacar num computador e voilá!, como se dizia na antiga – riscada e chiada – Helvécia. Ao que parece, o LP, ou mesmo 78, soam novinhos em folha, sem fissuras, sem fungos na superfície – e sem nenhum caráter, acrescento por minha própria conta. Vinil tem que ter chiado. De vez em quando, também dar um saltinho. Vinil é lavado na pia da cozinha com água morna e detergente e, depois, posto para secar. Daí passar uma flanela úmida e, aí então, deleitar-se ao lado da vitrola. Sim: vitrola. Aparelho de som é coisa de mariquinhas. No máximo, hi-fi. Eu quero que os suíços deixem de lado os cucos e o vinil e inventem agora uma engenhoca que espalhe chiados pelos CDs de roqueiros, metaleiros, essa raça toda. Nunca esquecer: o passado tem chiado. |
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