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Cidades e cores | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
A Terra é azul, observou o cosmonauta lá de cima. Nas asas da Panair, eu já havia notado, mas guardei para mim mesmo, fazendo segredo. O Rio é dourado – sempre foi, sempre será. Nova York é azul metálico. Roma (essa é fácil) é brique. Paris é furta-cor e caleidoscópica, e isso não passa de mais um "rimbaudismo" de minha parte. Londres é vermelha. Isso é o que sei depois de mais de 30 anos de observação. Observação meio daltônica, mas minha. Jorge Luís Borges, que era bem mais que daltônico, falava do "labirinto rojo de Londres". Nas poucas vezes em que nela me perdi (anos 50, ainda havia fog), estreante na cidade, pedi as coordenadas para o guarda na esquina, que me levou a uma cabine telefônica e ainda me fez a gentileza de chamar um táxi. Aí começa o vermelho de Londres. Nas cabines telefônicas vermelhas, quase extintas, graças aos celulares e à porcalhada que as novas gerações deram para fazer dentro delas. Há coisa de uns dez anos, pré-telefonia celular, a telefônica local substituiu quase 70% das tradicionais cabines por uns orelhões sem graça, com o agravante de um novo logotipo com a figura de um fauno, ou coisa que o valha, saltando como doido, ou doida, bailarina. Nunca entendi. Toparia até o/a bailarina, mas não o apagar do vermelho. Vermelhos os ônibus de dois andares, mas daqueles com condutor cobrando a passagem de banco em banco, nada dessa novidade de pagar o motorista na entrada. Eu disse dois andares. Cada vez mais, circulam os ônibus de um só andar, além do que com sanfona (um instrumento vil) no meio. Vermelhos os tijolinhos das casas em estilo georgiano, falso ou verdadeiro. Vermelhas as pilastras de chumbo batido onde se botavam as cartas para serem coletadas ao menos três vezes por dia. Continuam firmes nas esquinas, embora com duas coletas apenas. Estão pensando em mudar a cor. Como penso em mudar de cidade se continuar essa guerra contra o vermelho. Já perdi, ou deixei para trás, uma cidade dourada. Na cidade vermelha não admito que ponham a mão. |
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