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Atualizado às: 18 de março, 2005 - 10h09 GMT (07h09 Brasília)
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Nossa língua, nossa alma
Ivan Lessa
Tenho notado, em nossas folhas, uma certa má vontade com alguns pronunciamentos do ilustríssimo senhor nosso presidente da República, Lula da Silva.

Concordo que a missão da imprensa é criticar, fazer perguntas, averiguar, investigar e todos esses sinônimos que constam dos bons dicionários presentes em nossas redações. Acontece que as críticas não procedem.

Vivo num país onde os senhores políticos são constantemente escrutinados pelos senhores jornalistas, destrinchados (na medida do possível), explicados e – essa a dura verdade – esculhambados sem a menor cerimônia.

Max Hastings, um editor que faz parte da lenda do jornalismo britânico, está sempre contando a história de que, quando começou na profissão, seu editor deu um único conselho, o de que, ao entrevistar políticos, nunca se esquecesse de que "eles mentem, eles mentem, eles mentem".

Passo adiante como ouvi e li, não tiro conclusões. Mal entendo de comprar jornal (sempre erro o preço), quanto mais entendê-los.

Usei o verbo entender, e nisso reside meu argumento. Eu não entendo uma única palavra do que diz nosso, melhor dizendo, vosso presidente. E acho isso justíssimo, que sempre deveria ser assim.

Por exemplo, ainda há pouco catei na internet uma transcrição não só ipsis como também litteris de declaração recente do sr. da Silva. Teria o mesmo dito, em ocasião formal, que "a democracia é um gesto democrático feito pela boca daqueles que não têm paciência de ouvir a verdade".

O fato da fala ter ocorrido em Porto Alegre não diminui seu impacto. As falas tão criticadas do presidente Lula são instigantes. Envoltas em mistério, rompem o silêncio prosaico da miséria. Dão encanto e charme às sem-gracezas das classes média e aquelas que aspiram a essa condição.

Uma frase impenetrável não promete nada, ela constitui em si uma notável realização. Louvemo-la. Onde e da boca de quem surgir.

Nosso ministro da Cultura, ilustríssimo senhor Gilberto Gil, com seu ouvido precioso (em música chamado de perfect pitch, ou ouvido absoluto), percebeu essa realidade oculta e, em ocasião memorável (terá sido Porto Alegre de novo?), assim se expressou, para deleite e aproveitamento intelectual de quem quisesse ouvi-lo: "Eu queria dizer que a metáfora da música brasileira na globalização efetiva dos carentes objetos da sinergia fizeram a pluralização chegar aos ouvidos eternos da geografia assimétrica da melodia…"

E depois ainda me vêm falar de Churchill. Ora, pinóias!

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