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Atualizado às: 28 de março, 2005 - 10h09 GMT (07h09 Brasília)
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Como apreciar um quadro
Ivan Lessa
Basta dar um feriado que cismam de me levar a um museu ou galeria de arte. Este ano, quiseram me empurrar para a exposição de Caravaggio, na National Gallery, ou a de Turner, Whistler e Monet, na Tate Britain.

Pela enésima vez, expliquei que na minha sopa genética faltara um ingrediente vital: aquele que leva o indivíduo à apreciação do pictórico. Bati perna por museu afora, por este mundo de Deus e de seus Da Vincis, achei tudo muito bonito, mas não via a hora de poder sair dali e fumar um cigarrinho.

Deixei de fumar, deixei de parar diante de quadro célebre. Nada senti diante da Odalisca de Matisse. Ou Guernica, de Picasso. Não me gabo. Nada alardeio. Apenas admito minha insensibilidade. Aprendi a conviver comigo mesmo e mentir o mínimo possível para poder atravessar o dia.

Na verdade, até há alguns anos (e que isso fique entre nós), eu não podia me ver diante de obra pictórica de renome – a Mona Lisa, digamos – que só sentia uma coisa: vontade de tomar distância, vir correndo e dar uma cabeçada na dita cuja. Que fique claro: não era minha intenção ganhar espaço na imprensa mundial. Era algo inexplicável que vinha lá do fundo de minha alma. Assim como não deixar de tacar mais uma colherada na lata de leite condensado.

Fico sabendo agora que um dos mais profundos filósofos britânicos da história da arte, Richard Wollheim, escreveu, certa vez, que a única maneira que conseguia apreciar um quadro, uma pintura, era ficar paradão diante dele durante um mínimo de quatro horas, que só assim poderia usufruir dos prazeres de uma obra.

Ora, não é bem assim que, feriado ou não, se vai a exposição de arte, aqui na Grã-Bretanha, ou no mundo. Todos têm que passar, olhar para o bruto pendurado na parede, e seguir logo em frente, que atrás vem gente.

Mais terrível, para mim, é o percurso feito com guia falando alto, gesticulando e explicando tudo o que nasceu para ser inexplicado. Diabólicos mesmo são aqueles aparelhinhos com a visita pré-gravada em fita que as pessoas ouvem como se fosse CD de rock.

Toda arte custa uma fortuna e o único lucro é financeiro, para quem é marchand ou acabou de achar um Monet no sótão.

Todos nós – eu, principalmente – merecemos uma boa cabeçada nos peitos, que é para deixarmos de ser bestas. Arte é para quem pode, ou acha que pode.

Arquivo - Ivan
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