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O passado é amarelo | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Esse tempo todo fora do Brasil e eu quero, de vez em quando, me lembrar de como era isso e aquilo: uma rua, padaria, cinema, botequim, essas coisas todas que nunca pensei que fossem, um dia, me serem importantes, virarem o passado. Passado, esse bicho que pega a gente quando menos se espera. Os livros que estão saindo não me dizem muita coisa. São meio mudos. Fazem gestos, sorriem ou franzem o cenho, mas nada têm a me dizer. Filmes antigos? Nada. Oscarito ou Antônio das Mortes não chegam a constituir retrato na parede, feito Itabira do Drummond. O que eu preciso mesmo é de um bom biscoito proustiano, uma madeleine, um detonador da sinapse que me transporte a – por exemplo – Copacabana de 1951. Cheguei à conclusão de que, devido à ausência de fotos e flores definhadas dentro do livro, a melhor coisa seria mesmo uma lista telefônica. Precisamente: eu disse lista telefônica. Aquela de ruas. Estava tudo lá. Digamos que eu abrisse na rua Bolívar e fosse seguindo em frente, desde a praia até a Pompeu Loureiro, ali perto do Corte do Cantagalo. Iria dar, pelo que me lembro, no lado ímpar da rua, com a casa Balnéia (artigos para a praia), o Bar Bolívar, logo depois, um edifício, dois e, do outro lado da rua, o bar Dolly, que depois virou Flórida, mais tarde Nino's, e, finalmente, não sei mais o quê. Atravesso, pela tal lista imaginária (Meu equador! Meu meridiano de Greenwich!) -, a Ayres Saldanha, do lado esquerdo, ou a Domingos Ferreira, do lado direito -, e dou com outro prédio, este o Madelon, com sorveteria do mesmo nome no térreo, e, no quinto andar, o senhor Camilo Amorim, pai do Apolo, meu melhor amigo da época. E assim por diante, inclusive o telefone do ponto de táxis que ficava em frente ao Roxy, na esquina com Copacabana. Logo depois desta, a Peixaria Bolívar, que, soube outro dia pelo jornal - incrível darem -, fechou. Passado acabar ainda é notícia no Brasil. Ora, vejam! Espero que alguém, em algum lugar, tenha guardado listas telefônicas dessas pré-histórias. Quem quiser vender, favor entrar em contato. Sou freguês dos bons. Lista Amarela? Nem me falem. |
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