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Atualizado às: 21 de janeiro, 2005 - 11h08 GMT (09h08 Brasília)
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Parece que foi hontem
Ivan Lessa
O sambista Ciro Monteiro gostava de contar a história dos dois sujeitos que se encontram num velório e, após um comentar que ainda outro dia mesmo estivera com o falecido, exclama, "Que coincidência!".

O Formigão, como era apelidado, dizia então que o primeiro tipo ficava esperando a "coincidência". Não tinha. O homem queria dizer "catástrofe".

Ontem, dia 20 de janeiro, tomou posse, em Washington, o reeleito presidente George Bush. Por uma coincidência, de quatro em quatro anos, nesse mesmo dia, eu completo mais um ano de Londres.

Para ser preciso, 27 anos ao todo. Em Londres. Sem voltar ao Brasil sequer para umas feriazinhas. Pois é. A reação de todo mundo quando eu conto o fato é a mesma do distinto ou distinta que me ouve ou lê: primeiro, espanto; depois, desagrado; finalmente, vontade de quebrar minha cara.

É como se eu fosse assim feito esse correspondente americano que, segundo nossos patriotas de ânimos mais exaltados, não faz outra coisa a não ser cair de lenha no Brasil. Minha ausência é uma espécie de suprema crítica ao Brasil e a todos os brasileiros. Ou melhor, uma tremenda de uma safadeza.

Minha ausência é um palavrão berrado na presença de menores e senhoras de fina sensibilidade.

Cá entre nós, o mais difícil nesses 27 anos foi explicar por que se passaram 27 anos (ou o Brasil passou) sem minha presença, mesmo ocasional, turística. Há teorias conspiratórias em torno deste vosso criado distante.

Muitos fazem uma cara esperta e, cutucando a pessoa ao lado, perguntam na clave matreira da retórica, "E o canalha escolheu justamente o 20 de janeiro, dia de São Sebastião, padroeiro do Rio de Janeiro, para deixar de vez a cidade que ele supostamente amava".

Pois chegou. Não explico mais. Mentirei. Direi que foi devido a desfalque. Perseguição militar. Pai de moça seduzida e abandonada. Promessa. Superstição. O que quiserem. Isso, claro, se ainda houver alguém interessado.

Afinal, a diáspora, agora, já anda pela casa dos – o quê? – 2 milhões, dizem alguns. Dos males o menor: que deles eu seja o primeirão, uma espécie de bandeirante desbravador dessa total falta de caráter que é ir embora do país natal.

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