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Ano velho, ano novo | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
2004 passou num abrir e piscar de olhos. Meia-noite do dia 31 de dezembro, na sexta-feira, diante da televisão, o Big Ben e a plebe ignara lá, só espreitando, eu com a taça de champã na mão trêmula (sim, sou um tipo muito emotivo), as doze uvas da sorte ao lado esperando sua vez e a contagem regressiva do locutor de cabine da BBC: 10…9…8… Quando chegou a 2, eu fechei os olhos para só abri-los quando ouvi a reprodução mecânica de urros de felicidade e minha mulher sugerindo batermos de encontro uma a outra as taças do precioso líquido, como diziam os velhos cronistas sociais. Foi como um passe de mágica! Passassem todos os anos assim, com essa rapidez, e eu, além de ter me chateado muito menos, já estaria morto e enterrado há bem uns 70 anos, após uma longa e exaustiva vida de – o que? – uns bons 2 ou 3 minutos. Generalizemos, que é o que a ocasião (um ano novo terminado em 5) pede: não há qualquer motivo para um cidadão viver mais que 2 ou 3 minutos. Pare e pense, ilustre passageiro: depois de fazer suas contas, juntando tudo, mas tudo mesmo que você se lembra, dá para chegar aos 5 minutos? Claro que não dá. Marcel Proust mentiu e enganou todo mundo. O passado é mínimo. O fato de ele pesar, e nos fazer acordar no meio da noite suando frio e gritando não se sabe direito porque, é secundário. Tudo aquilo era enganação. Bastava você – a gente – ter piscado os olhos e tudo teria sido mais simples. Pensamentos ridículos à beira de um ano tão canalha quanto todos os outros, passados e futuros. Uns tomam boas resoluções, outros cerveja morna. A ressaca é idêntica. Ressaca, aliás, é uma péssima palavra para se iniciar o ano. Pergunta-se: e há uma boa palavra? |
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