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Ai, esse carrilhão, cáspite! | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
"Blim, blom! Blim! Blom! Bimbalham os sinos." Durante anos, no Brasil, num jornal moleque, eu iniciava assim meu editorial de Natal, que acabou se tornando tradição e mito nos meios esotéricos. Hoje, mais velho, limito-me a observar as folias de meus semelhantes, embora ainda tenha sérias dúvidas quanto ao fato de os britânicos serem realmente meus semelhantes ou de qualquer outra pessoa. Há 107 anos que os sinos do carrilhão de uma igrejinha na cidadezinha de Tickhill, condado de Yorkshire, norte da Inglaterra, bimbalham hinos e que tais. Só tem um probleminha, não estivéssemos nós na Grã-Bretanha: o carrilhão não bimbalha só no Natal, é o ano inteiro. E dia e noite a cada quatro horas. Esse bimbalhar quase contínuo não incomoda ninguém da cidade. Os locais acham tão natural como sabiá na gaiola. Com uma exceção, que por aqui as há e muitas e em tudo. Um cavalheiro reclamou. Disse, em reunião do conselho local, que não aguentava mais o carrilhão metálico vitoriano. Mas ele protestava apenas contra a bimbalhada das quatro da madrugada. Para ele, tudo bem com as outras três. Deu em quase revolução. Deveria dar em comédia inglesa antiga. Por um momento, alguém chegou a pensar em pegar em armas. Prevaleceu o bom senso (econômico) quando foram fazer as contas. Se cortassem apenas os blim-blons das quatro da matina, a mão-de-obra especializada para a delicada operação sairia por não menos que 5 mil libras, quase 10 mil dólares. Sendo assim, um caso de ou tudo ou nada, o solitário manifestante anti-carrilhão enfiou a viola no saco, ou seja lá que instrumento toca nas horas vagas, e conformou-se com a bimbalhada das quatro da madrugada. Em Tickhill, condado de Yorkshire, a coisa continua: Blim! Blom! Bimbalham os sinos! |
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