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Atualizado às: 12 de janeiro, 2005 - 11h37 GMT (09h37 Brasília)
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Afeto encerrado
Ivan Lessa
Tragédia na Ásia e as doações pessoais disparam, mundo afora. Generosidade simples e anônima, como deve ser.

Os britânicos, ao que parece, compareceram com um belíssimo quinhão. Entendo. Já que vi minha filha aqui ser educada, desde o jardim-de-infância, aprendendo que solidariedade é mais que parte da natureza humana – é obrigação.

Tudo feito sem gritaria, sem apelos dramáticos e, principalmente, sem slogans.

O que agora se vê, nos pôsters, é o lembrete da tragédia e a indicação de para onde enviar o dinheiro. Nos jornais, alguns anúncios levam foto ao lado do apelo.

Noto que não há, mas não há mesmo, slogan. De orelhada, ou seja, bom senso, eu diria que no mundo todo não foi necessário o uso de slogan. A sensatez nos diz que slogan é algo reservado à venda de algum serviço ou produto. Insisto: venda.

Como filho do Estado Novo, de Getúlio Vargas, muito cedo na vida acostumei-me a ver sentimentos ou solicitações à nossa cidadania vestidos de dourado, como na seresta de Orestes Barbosa.

Lembro-me de uma das muitas catástrofes provocadas pela eterna seca no Nordeste. Era uma campanha publicitária (deve ter saído caríssima) em torno do slogan, “Ajuda Teu Irmão”.

Causou espécie, conforme se dizia na época, a reação do sambista Jorge Veiga, que, com sua voz roufenha, disse num programa de rádio, “ Eu sou filho único.”

Acho que a carreira daquele que era chamado de “O Caricaturista do Samba” quase que afunda com o breque tido como mais do que inoportuno para nossa sensibilidade.

Vejo agora, nas folhas brasileiras, que o presidente Lula da Silva pretende propor, para 2005, aos meios de comunicação e agências de publicidade, uma campanha destinada a melhorar a auto-estima do país, onde, segundo palavras presidenciais, a “falta de afeto é um grave problema”, relacionada inclusive à “desagregação da estrutura familiar”, outra questão igualmente séria.

Vem pois aí uma campanha nos moldes de “O Melhor do Brasil é o Brasileiro”, que a ABA (Associação Brasileira de Anunciantes) fez vigorar no país ano passado e cujos resultados só vocês aí podem medir.

Comecei dizendo que sou filho do Estado Novo. Finalizo lembrando que éramos obrigados a cantar, antes das aulas, hinos patrióticos, sendo que o meu predileto era o da bandeira, aquele que diz “recebe o afeto que se encerra em nosso peito juvenil”.

Tinha afeto lá e eu dei. Tenho a impressão de que não deu em nada.

Arquivo - Ivan
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