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A dureza das férias | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Um dia você vai e descobre: as férias dão um trabalhão. As pessoas deveriam fazer curso de férias. Com diploma e tudo. Aprender a aguentar tudo aquilo que um homem – ou uma mulher – é obrigado a suportar nas férias. E vice-versa. Uma mulher ter que suportar um homem em suas férias. Às vezes, coitados dos dois, ainda mais com uma ou – ai! – duas crianças para tomar conta. Primeiro, a pedreira de escolher um lugar para as férias. O mundo inteiro não para mais quieto no lugar. Em algum lugar da Terra, é sempre tempo de férias e há uma cidade num país piscando os olhos, rodando a bolsinha e, debaixo do lampião, dizendo baixinho, “Vem cá comigo, vem! Você vai adorar.” Daí, então, o drama da escolha. Chato quando a mulher quer ir para a esquerda e o marido para a direita. Em geral, não vêem o poste no meio e se esborracham de encontro a ele. Praia ou campo, mar ou piscina, boizinho ou arranha-céu, o dilema é atroz, conforme se dizia num tempo em que as férias eram sinônimo de sossego e todos nós apenas nos limitávamos a tirar duas semanas para ficar de pé na esquina ou no boteco do “seu” Mané papeando com os amigos sem se preocupar com o relógio de ponto, seja este virtual ou não. Depois é a velha história. Passaporte em dia, quando é o caso, separar as roupas “de férias”, comprar os remédios da hipocondria de cada um, fazer as malas, calcular o tempo necessário para se chegar ao aeroporto ou ferroviária, deixar as contas pagas, calcular quanto levar em dinheiro, quanto vai ficar no banco, acertar o vídeo para gravar os dois programas favoritos, acertar com a pessoa que vai tomar conta da gata, dormir mal. Haja calmante. Férias são a invenção mais diabólica do capitalismo. Nossos patrões só as inventaram para que nós, tolos, que nunca deixaremos de ser empregados, só inventaram as férias, dizia eu, para nos ensinar que bom mesmo é o trabalho, a rotina, o 10 às 5, que isso o que enobrece e dignifica, feito diz o velho refrão. O objetivo das férias é nos humilhar e fazer que, como Dorothy, do “Mágico de Oz”, passemos a apreciar melhor o metrô cheio, a cidade barulhenta, a poluição, a luta com os desentupidores de pia e o barulho das pessoas em pleno estado de trabalho. Ou seja, pessoas chatas e tolas feito nós. |
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