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Dez anos de Tony Blair | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Mais de um quarto de século de Reino Unido e eu não voto. Prova de que há justiça no país que escolhi para me expatriar. Não voto porque não sou cidadão britânico. Não sou cidadão britânico porque preferi residência a cidadania. Meu passaporte continua brasileiro como as bandeiras em que Felipão e outros emigrantes gostam de se enrolar. Sou, em suma, um torcedor dos eventos locais. Posso não poder votar em gari, mas isso não impede minh´alma de berrar, “Vamos, gari! Manda brasa!” Eu disse “minh´alma”. A educação e os bons modos me aconselham uma certa reserva. A reserva já foi domínio britânico. Aos poucos, foi-se com o império e, agora, aí estão falando alto, expressando opiniões exaltadas, urrando, mandando, enfim – conforme aconselho ao tal gari – brasa. E estou me referindo às classes média e alta e não aos barulhentos frequentadores dos campos de futebol. Entre os quais – hélas! – não me encontro. Só sei ser Botafogo na vida. E Botafogo até os anos 60. Aí está o âmago da questão: o homem, além de cultivar paixões, é um animal político. Haverá, à exceção do futebol (ou seja, o Botafogo), paixão maior que a política? Como viver sem votar? Sem ir ao estádio? Simples. Basta se exercitar. Se exercitar muito. Não torcer. Ou, se inevitável, não dar a pala de estar torcendo. Trata-se de difícil disciplina cujo domínio só vem com os anos. Quando vem. Cheguei aqui em 1978 e o primeiro-ministro era trabalhista: James Callaghan. Em 1979, a Margaret (atenção, brasileiros, não tem agá no prenome. Que mania!) Thatcher, do Partido Conservador ascendeu, esse o verbo, e no poder permaneceu por 11 anos. Depois veio John Major, também conservador: 1990 a 1997. De 97 para cá, Tony Blair, que não é, ao que parece, do Partido Conservador. Blair assumiu as rédeas da poderosa carruagem (e meu estilo é uma deixa para bons entendedores) do Partido Trabalhista em 1994, que venceu as eleições de 97 e, agora, sempre muito sorridente, embora de forma assustada, aí está e deverá ficar por mais uns tempos. Eu acompanho o que por aqui se passou e passa. Quer dizer: torço. É meu brasileiro exercício, sem bandeira e sem foguete. Na moita. Para não incomodar ou ofender. Também para não ser chateado. Eu posso dizer que são bons modos. Mas que me lembra a ginástica que eu fazia no Brasil, na época da ditadura militar, ah, isso me lembra! Em todo caso, parabéns, Tony Blair. Sopre as velinhas e faça um pedido. |
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