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Jovens nos territórios ocupados vêem Israel como inimigo | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Pela grande quantidade de pipas que invadem o céu em Ramallah, na Cisjordânia, no fim da tarde, pode se ter uma idéia do número de crianças e adolescentes que vivem na cidade. De acordo com o Escritório Central Palestino de Estatísticas, 56,4% dos palestinos têm menos de 19 anos. Esta geração nasceu ou cresceu durante a segunda Intifada, que começou em 2000, em um território tomado por barreiras policiais, vigiado por soldados israelenses e dividido por uma barreira física. Para muitos dessas crianças, o dia-a-dia parece apenas alimentar a sensação de ódio ao 'ocupador' israelense e muitos são pessimistas em relação ao futuro. De acordo com o Centro Palestino de Política e Pesquisa, 60% dos palestinos com menos de 30 anos acredita que a luta entre palestinos e israelenses vá ficar mais violenta nos próximos cinco a 10 anos. A mesma pesquisa foi realizada em 2000. Naquela época, apenas 32% dos jovens palestinos pensava desta forma. Coleção de balas e bombas Adolescentes como Ramza Suleiman Bornat, de 14 anos, revelam os efeitos de se viver na Cisjordânia ocupada: "Estamos defendendo a terra palestina e vamos lutar até libertá-la. Vamos combater os judeus, que são um veneno nas nossas vidas", diz o garoto. As paredes do quarto de Ramza são enfeitadas com um cartaz do falecido líder palestino Yasser Arafat, uma enorme bandeira palestina e outra do grupo Fatah. Praticamente toda sexta-feira, desde os 11 anos de idade, Ramza se junta a um grupo de moradores da vila de Birin, onde mora, e segue para a área onde Israel pretende substituir uma cerca de arame que existe ali por um muro separando o local de assentamentos judaicos próximos. Os moradores costumam realizar passeatas contra a barreira e sempre ocorrem confrontos entre eles e os soldados israelenses. Os palestinos jogam pedras e os militares respondem com bombas de gás e balas de borracha. Ramza, que tem uma coleção de balas e bombas de gás israelenses que caem no chão em meio à confusão, diz que já apanhou dos soldados e uma vez foi até detido. "Não lutamos apenas para evitar a construção do muro, mas também pelo povo em Jenin, Nablus e Gaza, que sofre muito. A nossa luta é conjunta." Homem-bomba Existem sinais da mobilização pela causa palestina por toda a cidade: a maioria das casas tem bandeiras palestinas hasteadas nos tetos, algumas exibem também bandeiras do Fatah, e cartazes de Arafat ao lado do presidente palestino, Mahmoud Abbas, podem ser vistos em frente à principal mesquita da cidade. Ramza defende a utilização de homens-bomba para lutar pela causa palestina, por considerar esta uma das únicas armas que os palestinos têm além das pedras. Questionado se estaria disposto a ser um deles, ele silencia e em seguida responde: "Eu não gostaria, mas se não tiver outro jeito, como último recurso eu faria, sim". Não é preciso ir até as proximidades da barreira para encontrar crianças traumatizadas com a ocupação. Na cidade de Beituniya, vizinha de Ramallah, Celina Eid, de 9 anos, reclama que os soldados atrapalham as crianças na escola. "Eles vão para a escola, jogam bombas de gás em nós, atrapalham as nossas aulas. Se eu pudesse, eu mataria todos eles", diz Celina. A consultora psicossocial Layla Atshan, que trabalha para o Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância), diz que apesar de crianças não estarem acostumadas a ter inimigos, nos territórios ocupados elas são forçadas a ter um. "Para elas, os israelenses são monstros, elas têm muita raiva deles. É uma reação natural e não me surpreenderia se no futuro isto se transformasse em violência séria. De certa forma, é isso que os israelenses estão pedindo com as medidas implementadas nos territórios ocupados", diz Atshan.
'Humilhação' Uma das maiores dificuldades diárias apresentadas por adolescentes e jovens palestinos é a travessia nas barreiras policiais. "Quando você se aproxima da barreira, você sempre fica com medo, porque não sabe se vai encontrar um soldado simpático ou um que vai te obrigar a esperar horas a fio até te deixar passar. Você nunca sabe quanto tempo vai demorar para rever a sua família", conta Sanna Quran, de 17 anos. "Eu sempre fico me perguntando por quê pessoas de Deus fazem isso com outras. Eles nos humilham quando tentamos passar." "Pessoas idosas e crianças têm de ficar em uma fila sob o sol escaldante ou no inverno gelado só porque os soldados decidiram. E você vê que não tem motivo nenhum, é pura maldade", diz ela. Pessimismo De acordo com o Centro Palestino de Política e Pesquisa, a constante ação repressora israelense nos territórios ocupados é a grande responsável pelo pessimismo em relação ao futuro. "Todas as nossas pesquisas mostram uma relação entre violência e ações de punição coletiva aplicadas pelo Exército israelense. O pessimismo palestino também tem um papel importante nisso", explica o diretor do centro, Waleed Ladadweh. De acordo com ele, mais ações punitivas, como a instalação de barreiras policiais adicionais às já existentes, aumentaram o apoio por ataques armados contra alvos israelenses de 46% após as eleições palestinas em 2005, para 60% em 2006 e 2007. "Além disso, após as eleições os territórios ocupados viveram um período mais calmo, em que havia expectativas para se alcançar a paz. Mas a situação mudou e hoje existe menos esperança." A situação atual faz muitos jovens pensarem em deixar a região. A jovem Sanna, que acabou de se formar no colégio, diz que muitos colegas de classe falam em se mudar para outro país. "Eu sei que ficando aqui eu não vou ter as mesmas chances que eu teria fora daqui, mas eu, pessoalmente, me nego a sair. Talvez eu vá estudar nos Estados Unidos, mas depois eu volto para cá, porque esta é a minha terra." Na opinião de Atshan, o fim da ocupação israelense é a única forma de as futuras gerações palestinas crescerem em um ambiente normal e pacífico. "A violência aqui gera violência em Israel. O governo do país deveria tomar uma atitude responsável para o bem das crianças palestinas e israelenses e acabar com a ocupação", diz a psicóloga. |
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