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Atualizado às: 27 de novembro, 2006 - 11h21 GMT (09h21 Brasília)
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Ivan Lessa: Agora é cinza
Ivan Lessa
Futebol eu entendo um pouquinho. Todo brasileiro entende um pouquinho, sempre achando que entende um bocadão. Por aqui, os ingleses se proclamaram inventores do jogo para, além do mais, logo em seguida, se apodarem “nobres” e “bretões”.

Sim, o futebol é uma grande paixão popular na Inglaterra, apesar de serem apenas “unicampeões” do mundo (1966) e não, como nós, “pentacampeões” (1958 etc.), são eles torcedores apaixonados.

Tanta paixão que, com ela, veio embutida o “hooliganismo”, prática e expressão também doadas ao resto do mundo. Mas onde “the pig really twists the tail”, para sairmos da geral e passarmos para a tribuna da imprensa, é no “cricket”, ou “críquete”, conforme garantem nossos dicionários. Esse nós não praticamos, mas, ao contrário de tanta besteira, ao menos, traduzimos.

O futebol prossegue toda semana em vários campeonatos, numa festança para mim incompreensível, com botinadas para cima e para baixo. Acompanho assim como quem não quer nada. Talvez por não querer nada mesmo. Há, no entanto, “The Ashes”, que eu respeitosamente coloco em letras maiúsculas e deixo o nome entre aspas, erguido no ar como a copa que, em 58, Bellini ergueu.

É impossível escapar a “The Ashes”. O pau pode comer no campo e na arquibancada quando o Manchester United joga contra o Arsenal, mas nada se compara ao tempo e ao espaço dado a “The Ashes” em jornal e televisão. O que é afinal (são?) “The Ashes”?

Breve histórico

O críquete é um esporte mais antigo que futebol. Quando da excursão da seleção australiana à Inglaterra, em 1882, os ingleses perderam por margem mínima, levando e elevando assim a tunda para a história e definindo para sempre a feroz rivalidade entre os dois países.

Rivalidade comparável, em termos, àquela existente entre Brasil e Argentina no setor futebolístico.

Encerrada a contenda, o jornal esportivo Sporting Times, o mais popular na época, publicou como auto-gozação um obituário do críquete inglês. Mais tarde, no mesmo ano, a Inglaterra excursionou pela Austrália e o capitão do “team”, um certo senhor Ivo Bligh, recebeu das mãos de um grupo de senhoras uma urna contendo as cinzas de uma daquelas pesadas bolas usadas no jogo.

Sim, por incrível que pareça, senhoras e senhoritas não só frequentavam os campos (nunca diga estádios) de críquete, mas ainda se davam ao luxo honesto e verdadeiro de apreciar as partidas.

Pequeno e sentimental adendo à história: tão emocionado, ou louco da vida, ficou nosso querido Ivo Bligh, que acabou se casando com uma das damas do grupo de gozadoras.

Portanto, o críquete é mais sutil do que o futebol, além de muito mais difícil de se entender. Podem ser 11 jogadores em cada equipe, pode ser disputado com bola maciça e pás de madeira, pode ter arremedos de baliza de cada lado, mas acaba aí qualquer semelhança entre os dois esportes. (As pás de madeira são liberdades poéticas de minha parte). Há gente, inclusive, que gosta de dizer que o críquete não é um esporte, que ele é muito mais importante do que uma vulgaridade dessas.

Tudo pronto

Foi dado o apito inicial. Acho. Pois acaba aqui meu conhecimento de críquete.

Sei que o jornal que compro todo dia dá uma cobertura absolutamente fora de qualquer série que em geral se atribui aos ingleses.

Punhados de comentaristas, de blogs, de análises imediatas, de podcasts, a mais ampla e desvairada cobertura que se possa imaginar.

Acompanhei o espaço gasto na aventura das – traduzo para encerrar o assunto –“Cinzas”.

Apenas constatando que há muito espaço gasto, nada entendendo do que nele é tratado. Torcer? Torcerei pela integridade física e moral da bola, como se eu fora personagem de Nelson Rodrigues, que, por falar nele, adoraria desconhecer o críquete e todos seus mistérios.

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