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Afeganistão se enfraquece como modelo de reconstrução | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Em um momento em que o governo Bush precisa redobrar os esforços para convencer uma opinião pública com dúvidas crescentes de que o investimento no Iraque vale a pena, ele se defronta com o recrudescimento da insurgência no Afeganistão. A escalada de violência no país invadido em outubro de 2001 após os atentados de 11 de setembro não poderia acontecer em pior hora. O ressurgimento da insurgência que, além de efetivos do deposto regime radical islâmico do Talebã, envolve militantes da rede Al-Qaeda, tem o propósito, entre outras coisas, de sabotar as eleições parlamentares de setembro próximo, mais um passo no processo de estabilização do país. E instabilidade prejudica o empenho americano de mostrar o Afeganistão como um modelo de reconstrução, que tem o presidente Hamid Karzai, eleito em outubro passado, como uma espécie de garoto-propaganda. Até três meses atrás, as autoridades americanas apregoavam sucesso. Em abril, o comandante das forças militares dos Estados Unidos no Afeganistão, general David Barno, chegou a prever que em questão de um ano a insurgência estaria em uma situação de quase colapso. É o mesmo otimismo inverossímil que marcou declarações de comandantes militares americanos no Iraque e de autoridades do governo Bush, após as eleições de janeiro passado. Escalada da violência No Afeganistão, o otimismo se dobrou à realidade de combates, atentados suicidas, bombardeio de populações civis (pelos americanos) e execuções que alvejam de burocratas do governo a funcionários de grupos de assistência internacional (pelos rebeldes). Com a morte de 16 soldados na queda de um helicóptero na semana passada, os americanos tiveram o maior número de baixas desde a invasão de 2001 em um operação de combate. No começo desta semana, a imprensa americana acompanha atentamente as buscas de soldados de forças especiais desaparecidos em uma área montanhosa no nordeste do país, perto da fronteira com o Paquistão. Desde abril, de acordo com dados do governo de Cabul, já morreram pelo menos 700 pessoas – militares e civis, afegãos e estrangeiros. Neste período já foram 45 baixas americanas. São números mais modestos do que no Iraque, mas cresce o temor de que igualmente no Afeganistão os obstáculos à contra-insurgência vão exigir mais investimentos ou o reconhecimento de uma definição bastante limitada do que seja um sucesso na reconstrução de um país. Porta-vozes militares americanos agora admitem que a violência deve persistir e a Otan (aliança militar ocidental liderada pelos Estados Unidos) trará um reforço de três mil tropas para tentar garantir a segurança nas eleições de setembro. Os boletins de correspondentes dos jornais dos Estados Unidos no Afeganistão mencionam com cada vez mais freqüência um clima de desencanto popular com as tropas americanas, acusadas de funcionarem como um ímã de atração para radicais islâmicos estrangeiros. As indicações são de operações de insurgência mais bem coordenadas e com maior sofisticação tecnológica. A rede Al-Qaeda, que usou o Afeganistão como santuário e campo de treinamento até 2001, parece ensaiar um retorno ambicioso. Se a história do Afeganistão for circular, ficará difícil para o governo Bush repetir que se trata de um bom modelo a ser seguido na chamada guerra contra o terror. |
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