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Uma senhora | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Pelos meus cálculos, deveria ter lá pelos seus 30 anos. Morena, pele muito branca, pouco pintada. Não dava para ver direito como estava vestida. Mesmo que eu visse, nada me adiantaria em matéria de dado a seu respeito, uma vez que só se estivesse de vestido de noite, ou em farrapos, eu poderia dar um palpite sobre sua vida, sua condição social, conforme dizem por aí. Apesar da distância que nos separava, não quis ficar encarando muito. Poderia ser mal interpretado. Por alguém passando, pela própria se ela me notasse. Era uma senhora. Nada a ver com sua idade, que fique claro. Ou estado civil, evidente. Era o jeito. A expressão. Não tenho outra palavra para ela do que essa: uma senhora. Uma senhora séria. Séria, mas sem drama. Apenas a expressão concentrada de quem está à beira de tomar uma decisão ou ajudando alguém a chegar a uma conclusão. Eu juraria que ela tem senso de humor, gosta de livros e mais de teatro do que de cinema. Mas isso, evidente, é fantasia de minha parte. Excesso de imaginação. Qualidade, aliás, que ela compartilha comigo, sou capaz de jurar. Tudo nela, insisto, me torna capaz de jurar. É preciso que fique claro que eu não estava assediando a senhora em questão. Não estava seguindo-a por uma rua de Londres. Não estávamos, eu e a senhora, num bar, restaurante ou num desses cafés ítalo-americanizados cada vez mais ubíquos nesta cidade. Eu estava apenas fingindo estar à espera do sinal mudar de cor. Digo fingindo porque minha arritmia, regada por fibrilação auricular, insiste em me roubar o pouco fôlego ainda à minha disposição e não gosto de passar recibo de minha idade e suas mazelas em via pública. Eu estava – eu fiquei – apenas uns dois minutos perto da senhora em questão. Segui então meu caminho, sem olhar para trás. Ela continuou fechada na cabine telefônica vermelha trocando, com alguém que não eu, todos os mistérios desta vida, e prolongando, por mais um tempinho, a espetacularmente doce tradição de falar no telefone e não no celular. Louvado seja Nosso Senhor, bendita essa senhora: ainda há quem, na rua, com moedas por certo de ouro, use a cabine telefônica. |
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