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Jornalismo investigativo | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
De uma maneira geral, não me orgulho de ter na carteira de trabalho a profissão designada como jornalista. Não me entendam mal, acho a prática, em sua acepção e organização, das mais úteis e saudáveis. Mas não consigo me esquecer do filme Todos os Homens do Presidente, com o “Deep Throat”, que eu traduziria por “Gargalo Grosso”, na garagem, dando o serviço para o repórter e, no escuro, tragando fundo no cigarrinho, explicitando seu desdém pelo jornalismo, que, no seu entender era raso, superficial, leviano, por aí. De uma maneira geral, era e é verdade. Tudo, de uma maneira geral, é verdade. Como dizem nossos mineiros, firmes pousados em suas cercas, tudo depende também do ponto de vista. Então, vá lá que seja: depende do ponto de vista. O jornalismo com que eu implico horrendamente é aquele dito investigativo em que o ou a repórter fica duas semanas numa prisão turca, ou tenta entrar no avião com um revólver de mentirinha na bagagem, ou passa 24 horas mendigando numa rua de Copacabana ou Londres. Um bom trabalho de observação, contatos certos, dever de casa pesquisado e, pronto, sentar-se diante da telinha e tacar ficha. Aqui, agora mesmo, teve um exemplo vivo do que eu quero dizer que não gosto. Um jornalista do ultra-popular tablóide, o Sun, afim de melhor ilustrar para os leitores os problemas do asilo político na Grã-Bretanha, resolveu se fazer passar por um estrangeiro ilegal. Logo para quem: o Sun, que prima por ilustrar sua terceira página com mulher peituda pelada, ou semi-pelada, e cuida meticulosamente de evitar palavras com mais de uma sílaba. Nosso intrépido companheiro, Brian Flynn, que já foi correspondente em Nova York, onde essas artes são ainda mais populares, se fez passar por refugiado kosovar no porto de Dover. As autoridades locais não conseguiram se entender com ele e, racionalmente, buscaram um intérprete. Que constatou em menos de dez minutos que o suposto kosovar não sabia dizer sequer “bom dia” numa das duas línguas faladas na região, o albanês e o servo-croata. Após interrogatório em inglês o jornalista investigativo Bryan Flynn foi solto. Pena. Uma semaninha de cana faria bem e – quem sabe? – daria até numa razoável reportagem. |
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