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A arte do quadro-negro | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Ivo viu a uva. A professora escrevia no quadro-negro e nós tínhamos de copiar. Alguém sempre reclamava de que havia um reflexo, não dava para ver direito. Ivos e uvas foram ficando para trás, o tempo correu como se para o recreio e, no quadro-negro, começaram a surgir mistérios ainda mais impenetráveis do que o menino bobo (Ivo nunca me pareceu muito esperto) a olhar para a fruta única, que nem em cacho se submetia a uma apreciação. Quadro-negro, para mim, é de conotação aborrecida e, quando mal riscado com giz, produzindo aquele ruído tétrico, sinônimo de tortura digna de Abu Ghraib. Hoje em dia, ouço dizer, os quadros são verdes, quando existem, e nele se escreve com canetas de feltro. Muitos chamam, ou chamavam, de lousa e, em verdade, dá tudo na mesma, virou peça de museu. Nada mais justo, portanto, que o Museu de História Científica, da Universidade de Oxford, esteja apresentando, de segunda-feira, dia 18, até setembro, uma exposição que, sob o título de Bye-bye Blackboard, destina-se a comemorar aquele que ajudou (ou aborreceu) a vida de tanto aluno. Criação Não se esqueceu o curador da mostra, e diretor do Museu, Jim Bennett, de que o quadro-negro também foi instrumento de trabalho e criação em momentos únicos do século 20. Ele exemplifica com um quadro-negro utilizado por Albert Einstein em 1931, para demonstrar parte de sua Teoria da Relatividade, e que lá está dominando a exposição, como uma espécie de Mona Lisa das lousas. De resto, o Museu pediu a acadêmicos, escritores e compositores que colaborassem escrevendo algo especialmente para quadro-negro. Constam, pois, da exposição textos de Alain de Botton além de trechos de uma partitura das Variações Goldberg, de Bach, registrados pela pianista Joanna MacGregor, para ilustrar uma de suas por certo elucidativas palestras. O cartunista Michael Heath e o arquiteto sir Nicholas Grimshaw também estão representados com mostras de suas especialidades. Falta apenas um quadro-negro em branco para alguém com longas unhas nele cravar aquele grito de horror. |
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