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Atualizado às: 06 de abril, 2005 - 11h40 GMT (08h40 Brasília)
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Ricos e remediados
Ivan Lessa
Há perto de 40 anos, quando primeiro sentei praça nestas ilhas, havia uma nova liberdade no ar. Coisas dos hippies. Flores e paz, amores livres e drogas idem.

Nos meus primeiros contatos com os locais, aprendendo o ABC dos modos e costumes então vigentes, sempre em bares, claro, percebi com euforia que não havia assunto tabu, que tudo podia ser dito, inclusive aos berros, se assim ditasse a vontade do freguês.

Mesmo com todo aquele fumo no ar, não era preciso erguer a voz. Notei logo, em todos os meios a que tive acesso (que não iam além dos, digamos assim, “remediados”), que havia um assunto que deixava as pessoas hesitantes, pigarreando, sem graça, olhando para os lados, como se estivessem gravando tudo.

Lembremo-nos que eu vinha de um país onde imperava a ditadura militar e a paranóia era quase sempre justificada. O Rio de Janeiro de 1968 era uma cidade onde se falava e se vivia baixinho.

Mas o que embatucava as pessoas então? Qual era o papo que dava, no linguajar da época, bode? Onda errada? Desvios sexuais? Perorações anti-monarquistas? Absolutamente. Era dinheiro. Os ingleses não falavam de dinheiro.

Era como os freudianos gostam: dinheiro igual a caca. Feio e infantil falar em dinheiro a não ser para pedir a conta e fazer o cálculo da gorjeta para o garçom.

Nunca soube quanto ganhava Smith ou Jones. Não me lembro de coisas de grife espalhadas pelo corpo – de relógio a sapatos. O segredo, a alma do negócio, era a discrição. Um bom endereço não se divulgava. Ostentar era o pior dos pecados.

Anos Thatcher, ou Reagan, se preferirem, anos de privatização, de desregulamentação. Passou a valer o coringa. Dinheiro hoje é a última palavra em matéria de moda.

Todo ano, o Sunday Times publica a lista das mil pessoas mais ricas da Grã-Bretanha. São os super-ricos. Perfilados e avaliados, com todos seus gostos e pertences. Domingo passado, saiu a mais recente lista, encabeçada por – quem diria? – um russo, dono de um time de futebol, o Chelsea, e de não sei quanto em petróleo em sua terra natal, se natal e terra ele tem.

Os remediados e os pobres tomam conhecimento e devem achar uma graça enorme. Feito no mundo inteiro. Até onde sei, não há ninguém conferindo os endereços. Seqüestro ainda não chegou aqui. Que eu saiba. Veremos o que veremos.

Arquivo - Ivan
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