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Espécie desconhecida | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Mentira. Nós sabemos tudo. Dos nomes de líderes xiitas a candidatos à Presidência dos Estados Unidos, passando pela filiação do goleiro haitiano. Não há nada de novo sob o sol. Ou sobre o sol. A mesmice de sempre. Nada mudaria, em essência, se, nos Jogos Olímpicos, os Estados Unidos perdessem em basquete seguidamente para equipes do porte de Porto Rico ou o Brasil conseguisse uma medalha de ouro nos 100 metros rasos. Nós, a humanidade, somos uns chatos. Pior: sem galochas. Nós nos conhecemos demais. Qualquer novidade será benéfica. Por isso, devemos exultar quando algo de diferente acontece. Algo que não exploda, mate, esgane. Tragédia e desastre, não. Disso já temos mais do que nossa cota. Não tem nada de original. "É a vida", dizemos e seguimos em frente para – nas televisões, nas folhas – a catástrofe seguinte. Regozijemos, pois, com o Gallirallus calayanensis. Quem é e o que fez? É um pássaro, uma gralha. Misterioso e de aspecto circunspecto: castanho-escuro, bico e pezinhos vermelhos, e incapaz de voar, o que lho torna medalha ao menos de prata no mundo das aves. O Galli, como já o chamo com intimidade e um pouco de ternura, foi descoberto numa das ilhas Babuianas, situada ao norte das Filipinas, onde seus 8,5 mil habitantes ocasionalmente pegavam um na crença de se tratar de um tipo original de galinha. Prosseguiram em seu engano até o mundo exterior ir lá bater, como sempre acontece. Um chato de um ornitólogo deu com a ave, olhou, olhou, pesquisou nos livros e decretou: "É espécie desconhecida". No que logo a catalogou, fotografou e divulgou, para júbilo de todos nós e fim da alegria de recluso dos gallirallus todos. O Galli, segundo consta, além de não voar, tem uma segunda peculiaridade. Não pia, não grasna. Emite um som de trompete. Meio roufenho, mas trompete. Há uns 50 anos pegaria um lugarzinho em alguma big band americana. Não digo a de Duke Ellington, mas por aí, por aí. O primeiro passo dos ornitólogos faz sentido: cuidar de preservar a espécie. Pois que a primeira providência do ser humano, em se tratando de ave bizarra, é extingui-la. De semelhante argila somos feitos, ó Senhor! |
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